terça-feira, 3 de janeiro de 2017

O CORPO LÉSBICO É UM TEMPLO ANTIPATRIARCAL

O corpo lésbico, a existência lésbica, é o único lugar, o único espaço, a única instituição que o macho, sujeito patriarcal, não consegue invadir. A sexualidade lésbica é o único lugar social que existe e prescinde da existência do sujeito falocentrado.

Nenhum homem pode admitir isso. Eles não admitem. Fetichizam lésbicas e a existência lésbica, sonham em possuí-las, em penetrá-las, em dominá-las, em acessar seus corpos e suas subjetividades, sonham em dominar lésbicas da mesma maneira que dominaram as outras mulheres através do regime heterossexual. A heterossexualidade é o regime eficaz de dominação no patriarcado, regime político, econômico, ideológico ao qual TODAS as mulheres estão submetidas, com exceção das lésbicas.

Homens não admitem uma categoria feminina que não os idolatre, que não os ame, que não se submeta, a si, seus afetos mais íntimos, a sua sexualidade, à validação masculina, ao crivo da heterossexualidade. Isso se converte, pra alguns homens, num fetiche de dominação sem limites.

Eles são capazes de qualquer coisa em seu esforço pra acessar e dominar uma lésbica, seu corpo, sua sexualidade indisponível e insubordinada ao macho, à lógica de dominação do macho. Inclusive se mutilar, inclusive mutilar o próprio pênis.

Homens são criaturas bizarras e violentas.



Comentário recebido no blog

SOBRE GÊNERO COMO SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO E/PARA EXPLORAÇÃO DO SEXO FEMININO

As diferenças naturais existem em uma gama de diversidade de formas de reprodução, de cores, de texturas, de funções... a natureza é diversa e cada diferença é importante no ciclo de manutenção da vida, na natureza não há hierarquia, tudo que existe importa igualmente para que a natureza exista e continue existindo. A hierarquia é uma criação humana. As diferenças naturais existem, mas elas só ganham sentido pela significação humana.

Quando quem dá sentido à realidade é o macho, o pensamento masculino e falocentrado, gerado a partir da materialidade do macho, que concebe a si mesmo e a tudo a partir de sua própria centralidade e falocentrismo, a diferença sexual natural entre machos e fêmeas humanas se converte na categoria "mulher".

O discurso e a prática de naturalização da hierarquização falocentrada da diversidade natural macho/fêmea, por sua vez, se chama "gênero".

Gênero não é natural. Gênero não é uma escolha. Gênero não é um sentimento. Gênero é um SISTEMA DE CLASSIFICAÇÃO QUE EXPRESSA A HIERARQUIA SEXUAL DO SEXO MASCULINO SOBRE O FEMININO.

Gênero, portanto, é uma das estratégias de um sistema de dominação do sexo masculino sobre o sexo feminino. O gênero existe enquanto uma imposição dos significados que o macho falocentrado cria sobre o sexo feminino e sobre aquilo que convencionou chamar de "mulher". O "gênero feminino" é uma CLASSIFICAÇÃO que o sexo masculino cria para dar significado, para significar, o sexo feminino de acordo com suas próprias demandas e necessidades. Essas significações, por sua vez, precisam ser convertidas em práticas, e delas surgem os estereótipos de gênero, que são uma série de condutas e ações que a lógica masculina e falocentrada impõe ao sexo feminino para reduzi-lo de acordo com as necessidades e demandas do macho falocentrado e deu seu pensamento, e depois definir que aquilo é ser mulher, e que portanto, aquilo é "natural" - reafirmando, assim, a ideia de que existe, naturalmente, um gênero feminino. Ideias e práticas que, por suas vez, precisam ser naturalizadas através do apagamento dessas relações mais profundas, desses fundamentos e através da naturalização e da positivação dessas práticas pelo discurso masculino falocentrado.

Os estereótipos de gênero são, portanto, uma série de ritos de submissão naturalizados (signos, comportamentos e condutas que servem para fragilizar e domesticar o sexo feminino e depois naturalizar o discurso de que o sexo feminino é frágil e delicado naturalmente - os cabelos longos, p. ex., que servem para facilitar os ataques sexuais, a debilidade física feminina, associada à delicadeza, e esperada da mulher, p. ex. que serve para dificultar que mulheres desenvolvam a força necessária pra autodefesa). O sistema de classificação por gênero e os estereótipos criados a partir dele imposto às pessoas que nascem sob o signo do sexo feminino serve para submetê-las à hierarquia sexual criada e naturalizada pelo discurso masculino falocentrado. O sistema de classificação por gênero e os estereótipos criados a partir dele servem para naturalizar essa hierarquia e esconder que ela não é n atural, mas que é uma criação e uma instituição do macho falocentrado.

A criação e a instituição da hierarquia social servem para manter mulheres dominadas. No patriarcado, as mulheres são dominadas através da hierarquização sexual, que acontece através do sequestro, da dominação, da ressignificação e da exploração da sexualidade e das capacidades reprodutivas da fêmea humana pelo macho falocentrado e em função dele e de suas necessidades. Esse sequestro, por sua vez, será convertido em uma Divisão Sexual do Trabalho, processo que se desdobra de unidade familiar a organização social complexa, logo, processo pelo qual a sociedade patriarcal se organiza e se mantém,com base na exploração da sexualidade, da afetividade e do trabalho das mulheres, para sustentar os projetos e empresas masculinas. Nesse processo em que às fêmeas humanas, classificadas como "gênero feminino" por sua biologia e pelo sequestro de suas capacidades reprodutivas, são impostas as funções ligadas à reprodução, ao espaço doméstico, ao fornecimento de conforto material, prazer sexual e herdeiros para perpetrar o sistema de dominação masculina, precisa ser naturalizado e ressignificado de maneira positiva pelo macho falocentrado, para tal, é preciso naturalizar a ideia de "gênero", é preciso apagar o que se esconde por trás da instituição "gênero", é preciso fazer crer que "gênero" pode ser algo positivo, diverso, alegre, feliz, que pode ser uma escolha pessoal, um dado da subjetividade de cada um. Mas não é. Gênero é uma estratégia e uma prática de dominação fundamentada na hierarquia do sexo masculino sobre o sexo feminino. A isso se chama de PATRIARCADO. O patriarcado não é outra coisa, não é uma ideia, não é uma abstração, ele é ISSO. Ele é esse sistema de dominação pela hierarquização da diferença sexual que possibilita a dominação e exploração do sexo feminino pela Divisão Sexual do Trabalho e que cria significados positivos de maneira a naturalizar essas instituições pela ideia de "gênero". A isso se chama PATRIARCADO.

Gênero não é uma palavra vazia ou uma expressão que representa somente uma série de estereótipos, gênero é um sistema de classificação e de dominação DO SEXO FEMININO.

Patriarcado não é uma palavra vazia ou uma expressão que representa um sentimento ruim que acomete os homens circunstancialmente, patriarcado é um sistema de dominação e exploração do sexo feminino que se constrói a partir da hierarquização do sexo feminino e se concretiza pela classificação por gênero e pela criação de significados positivos que escondam seus fundamentos reais.

Por isso é tão importante afirmar que a categoria "mulher" não serve mais ao feminismo, e que em vez de falar sobre "mulheres" precisamos falar sobre "gênero"

E qualquer mulher que tente desvelar essas relações, apontar os fundamentos do "gênero" e trazer a tona uma história que o patriarcado precisa apagar a qualquer custa para que se mantenha, qualquer mulher que tente desvelar o sistema de dominação que a ideia de "gênero" engendra, que tente desvelar a história da dominação e da servidão do sexo feminino - o sexo cuja a exploração material, sexual e subjetiva fundou e mantém o patriarcado - escondida pela naturalização e positivação do sistema de classificação por gênero será condenada a queimar na fogueira da inquisição Queer e Transativista, pela inquisição PATRIARCAL.

segunda-feira, 19 de dezembro de 2016

SOBRE ARTE, GOSTOS E PATRIARCADO

Sabe por que a gente vê violência contra nós de todo tipo, violência discursiva, simbólica, material, moral, psicológica, na tv, na publicidade, na música, na literatura, no cinema, no teatro, enfim, em todas as grandes obras dos homens considerados "gênios" pelo patriarcado, e muitas de nós nem percebem essa violência e outras ainda percebem, mas acham que dá pra tolerar porque tem "partes aproveitáveis" ou porque tem que "separar o artista da obra" e, ainda sim, continuamos gostando desses artistas, consumindo suas obras, reproduzindo suas produções [e seus valores, por conseguinte]?

Porque não nos concebemos como seres humanas, nos concebemos a nós próprias como o segundo sexo, como objeto do sujeito masculino, apenas concebemos nossa existência a partir do macho e daquilo que ele define sobre nós. Nós não reconhecemos em nós mesmas a nossa humanidade e, portanto, somos incapazes de reconhecer essa humanidade também em nossas semelhantes, por isso achamos relevante e tolerável ver outras mulheres sendo avacalhadas, achincalhadas, diminuídas, inferiorizadas, prostituídas, humilhadas, agredidas, estupradas e mortas e continuamos achando razoável estabelecer motivos pra amar esses artistas e suas produções. A rivalidade feminina cumpre um papel fundamental aí: apartadas umas das outras, sem reconhecer uma nas outras - e em nós mesmas - nossa humanidade, podemos ser facilmente convencidas por homens que, apesar de mulheres terem sido representadas por eles nas artes durante todo o desenvolvimento de nossas sociedade de uma maneira limitada, inferior, desumanizada, nós podemos ser diferentes dessa representação, melhores que ela, especiais, justamente se, dentre outras coisas, aprendermos com homens a apreciá-las, a apreciar as artes, as representações, os discursos violentos e limitadores que eles criam sobre nós, a tolerar, relevar e reafirmar a condição desumana daquelas que são representadas, das quais somos convencidas a crer que não se parecem conosco, porque nós somos especiais, estamos acima delas, justamente por que recebemos a aprovação e a aceitação de um [ou alguns] homens por adulá-los, por aceitar o que eles produzem sobre nós.

Se mulheres tivesses produzido a metade da quantidade de obras que homens produziram nos representando de forma torpe e objetificada com representações de igual teor sobre o sexo masculino, sobre homens e sobre a masculinidade, nossa sociedade já teria entrado em colapso e, provavelmente, os homens mandariam destruir e queimar toda essa produção com uma justificativa tão esdrúxula quanto convincente, que toda a sociedade ia apoiar. E veríamos milhares de livros, peças publicitárias, músicas, peças de teatro, rolos de filmes de cinema sendo censurados, tirados de circulação, destruídos, queimados, apagados da História e da Memória de nossa sociedade - com ampla conivência da sociedade.

Mas vá nós, mulheres, criticar radicalmente as produções artísticas masculinas e dizer que, como obras criminosas contra nós mulheres, não poderiam sequer ter sido concebidas um dia, vá criticar seus autores, e veja o que acontece. Todos se voltam contra nós. Inclusive as próprias mulheres.

E quando a gente fala pra mulheres que elas precisam parar de consumir esses lixos misóginos que o patriarcado convencionou chamar de "geniais", "sétima arte", "literatura universal", "cânone" e outras baboseiras que supervalorizam a misoginia óbvia dessa sociedade, elas se revoltam, criam discursos de autoproteção baseado em seus afetos e gostos pessoais - que são justamente os discursos que nos mostram que elas mesmas não se veem como seres humanas e, portanto, não são capazes de reconhecer a humanidade em outras mulheres, no sexo feminino, e só são capazes de seguir crendo ser razoável idolatrar ou ter algum afeto pelo discurso e por artistas que nos retratam de maneira objetificada e desumanizada simplesmente porque "eu gosto" ou porque "eu não consigo não gostar".

Se as mulheres tivessem a exata dimensão do quanto os homens nos odeiam e de como a forma como nos representam em suas artes é cruel e violenta e define e concebe a nossa existência nessa cultura patriarcal, já estaríamos, ao menos, começando a pensar que não é tão absurdo assim o que eu tô dizendo aqui e que não há nada de mal ou de absurdo em mulheres pedirem a outras para que parem de idolatrar e consumir esses artistas e suas obras.

Revejam seus gostos, reconstruam suas bibliotecas, seus gostos artísticos, musicais, reelaborem seu conceito de arte. Misoginia NÃO É ARTE.



Vejam o vídeo: "Passionate Dialogue" no Facebook ou no Vimeo, de Jan Svankmajer, um macho que faz uns vídeo super bizarro, violento e grotesco, pura representação e celebração da cultura e do regime heterossexual e da violência masculina. Obviamente, um macho super valorizado e superestimado pelo patriarcado.

Quantas conseguem enxergar a violência heteropatriarcal desse vídeo e sentir repulsa por ele e compaixão pela nossa classe nele representada?

Quantas pessoas vocês acham que me consideram louca, exagerada e histérica pelo que estou criticando aqui e não considerariam da mesma forma um homem no caso suposto do terceiro parágrafo do texto, por exemplo?


-2:46

segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

LUIZ COPPIETERS, O TRANSATIVISTA MISÓGINO E LESBOFÓBICO AGORA É PORTA-VOZ DE DIREITOS HUMANOS DO FACEBOOK.

Luiz Coppieters, o travesti da USP, e seu séquito falocentrado, se reuniu com a equipe do Facebook pra ditar as regras do ativismo virtual nessa rede. Isso mesmo: um homem fetichista, misógino e lesbofóbico, a quem foi concedido espaço e voz por uma grande empresa para ditar os rumos da militância virtual, inclusive de mulheres e lésbicas.

Luiz, que prefere ser chamado de Luiza, se afirma "mulher trans lésbica" (lembrando que lésbicas NÃO possuem pênis e que lésbicas NÃO se relacionam com pênis, e que coagir lésbicas a manter relações sexuais com pênis configura ESTUPRO CORRETIVO), embora seja apontado frequentemente por mulheres lésbicas por seus episódios misóginos e lesbofóbicos nas redes sociais, virou porta-voz das mulheres e das lésbicas em reunião com empresários responsáveis pelo Facebook.

[Veja aqui e aqui  as manifestações misóginas e lesbofóbicas de Luiz e as críticas das mulheres a ele e veja as cartas de repúdio, aqui e aqui. Leia também sobre o poder do macho e a ideia masculinista, misógina e lesbofóbica de que pode existir pênis lésbico.]

Diante desse horror, do pânico de ter uma pessoa do sexo masculino, que prega o estupro corretivo de lésbicas, sendo alçada a porta-voz de mulheres e lésbicas nas redes sociais, eu lanço a pergunta:
Quem vocês acham que tem poder de determinar o que uma megaempresa deve permitir ou censurar em suas plataformas? Quem vocês acham que tem o poder de sentar na cabeceira de uma mesa de reunião de uma megaempresa de mídia para ditar as regras sobre o que pode ou não pode ser veiculado acerca de mulheres e mulheres lésbicas nas redes sociais? Eu vos digo: QUEM TEM PÊNIS. QUEM DETÉM O PODER DO FALO. E AQUELAS MULHERES QUE COADUNAM COM ESSE ABSURDO.

Omexplicanismo em uma imagem:
Macho que "se sente mulher lésbica" na cabeceira da mesa em reunião com o Facebook pra ditar as regras pra militância virtual lésbica e feminista.
Como sempre, as mulheres ouvem atentamente pra aprender com o macho sobre a própria condição.

As mulheres estão cegas cegas. Tão cegas e colonizadas pelo falocentrismo e pelo backlash transativista que não conseguem enxergar o óbvio: SOMENTE A UM HOMEM E AS SUAS IDEIAS SERIA CONCEDIDO ESSE ESPAÇO E ESSE PODER PARA FALAR DE MILITÂNCIA SOBRE LÉSBICAS E MULHERES.


Tentar convencer lésbicas que pessoas do sexo masculino podem ser lésbicas e que pode haver pênis numa relação lésbica tem um nome: ESTUPRO CORRETIVO. Qualquer pessoa que usa de qualquer argumento para inserir pênis em relações lésbicas é um ESTUPRADOR.

terça-feira, 8 de novembro de 2016

NEM MORTA OUVIRÃO

Conseguiram. Eu, que me recusava com tanta força a cair nesse lugar, nesse lugar nefasto, adoecido, enfraquecido, débil e debilitante em que o patriarcado deseja e se esforça para que permaneçam todas as mulheres. Eu achei que por já ter enfrentado ele tantas e tantas vezes e ter sobrevivido, e ter mantido a minha lucidez, e estar aqui onde hoje eu estou, e que ter me dado recentemente conta disso me fazia tão forte e tão consciente de tudo, eu achei que eu jamais voltaria a cair nele, porque eu sou uma lésbica e eu estou viva e isso me faz ter uma força e uma coragem imensas. Mas vocês conseguiram. Porque essa desgraça desse sistema é violento, e quanto mais fortemente nos insubordinamos, mais e mais fortemente eles nos golpeiam com suas armas. Até a gente cair. Até nos derrubarem de novo nesse lugar, que é o lugar que eles destinam a todas as mulheres, que é o lugar onde nos querem. Até a gente ficar assim, desamparada, desprotegida, fragilizada, infantilizada, até nos chamarem de loucas, tolas, exageradas, burras, culpadas, até nos condenarem, até nos punirem. Que é pra gente saber bem, exatamente, qual é o nosso lugar nessa sociedade dominada por homens. E não ousar sair dele. Hoje, a plena consciência do que é ser condenada a me desculpar e a indenizar um agressor está me matando. Estou de joelhos, forçadamente de joelhos, sequestrada, desumanizada, humilhada e impotente. Estou sendo posta forçadamente de joelhos aos pés de todo patriarcado, de todo agressor, estou sendo escarnecida publicamente, me cospem, me dão na cara, mijam em mim, e riem. Estou forçadamente de joelhos sendo obrigada a pedir perdão por ter denunciado publicamente um agressor, por ter me insubordinado e me insurgido contra sua agressão. Com o peso de todas as  mãos patriarcais sobre minhas costas e cabeça, sem poder me erguer, me levantar, sou forçada a permanecer de joelhos diante do agressor e a me desculpar com ele por não ter silenciado, por não ter me calado diante de uma agressão.

Como uma criança de 6 anos, eu choro, me sentindo frágil, agredida, humilhada, derrotada. Como uma criança de 6 anos eu choro por não me sentir capaz de fazer outra coisa nesse momento. Como uma criança de 6 anos eu choro sem saber mais o que fazer pra reivindicar a minha própria humanidade. 

E como uma serva estou sendo obrigada a pedir perdão aos meus senhores. Estou sendo obrigada a pedir perdão e a indenizá-los como forma de punição à minha insubordinação, a minha petulância em acreditar e ousar tornar publica a minha certeza de que mulheres são humanas e que, numa sociedade que mata 1 mulher a cada 5 minutos, em que uma mulher é estuprada a cada 11 minutos, em que cinco mulheres são espancadas a cada 5 minutos, num país que é o 5º do mundo em casos de violência contra mulher, nessa sociedade, nesse país, as agressões contra mulheres, contra quaisquer mulheres, não podem ser toleradas de nenhuma forma, por acreditar que, nessa sociedade, nesse país, agressões contra mulheres devem ser publicizadas e denunciadas sempre pelas mulheres, que elas precisam ser encorajadas a denunciar, que elas não podem temer denunciar, que elas não podem temer romper o silêncio, sob o risco desse silêncio continuar nos machucando, nos estuprando, nos matando, como sempre fez; nessa sociedade, estou sendo obrigada a pedir perdão a um agressor por ter tornado publica a sua agressão e o caráter machista dela.

Estou de joelhos, com o peso das mãos de todos os patriarcas me dobrando as pernas. Mas não ouvirão o meu perdão.

NÃO OUVIRÃO SAIR DA MINHA BOCA, NEM DAS MINHAS MÃOS E NEM DE NENHUM LUGAR DO MEU CORPO, AINDA QUE FORÇADO A SE DOBRAR DIANTE DOS PATRIARCAS, NEM DO MEU PEITO, NEM DO MEU SEXO, NEM DO MEU CORAÇÃO, DE NENHUMA PARTE DE MIM VOCÊS NUNCA OUVIRÃO UM PEDIDO DE PERDÃO.

Por todas as mulheres vilipendiadas, humilhadas, agredidas, violadas e mortas, por todas as mulheres que lutam e resistem, por todas as lésbicas que, em todos os minutos de suas vidas, são fortemente empurradas pra esse lugar do silêncio e da desumanização. A força desgraçada que dobra hoje meus joelhos não os dobrará para sempre, porque ela nunca será maior do que a minha.


Sou lésbica, sou feminista, eu resisto.





Ode a todas as mulheres que vivem, que resistem e que lutam

Hoje é uma noite muda e afiada
como uma faca de cortar esperanças.
Hoje a lua é lâmina que estanca o sonho
segundos antes do golpe.
E o feixe de luz que me vaza os olhos pela insônia é


Ó
D
I
O


Mas quando me aniquilam a humanidade,
é o ódio que me humaniza de novo,
é o ódio que me faz não duvidar de mim,
é o ódio que me faz manter a certeza
de que eles estão errados,
que eu não estou louca,
e nem descontrolada,
eu não preciso ser punida,
como querem fazer parecer,
de que eu estou certa,
de que eu sou humana
E que continuar acreditando nisso
é a única forma de me manter viva e sã,
e que embora não seja necessariamente
uma garantia disso, é a única forma


De a gente se manter vivas.


É CONTINUAR ACREDITANDO.

EU CONTINUO ACREDITANDO.

E CONTINUAREI GRITANDO PARA TODAS AS MULHERES:

NÃO DESISTAM DE SUA HUMANIDADE.



[Esse poema começou aqui e cresceu pra fora, mas não pra muito longe.]

♀

segunda-feira, 7 de novembro de 2016

PROSTITUIÇÃO É ESTUPRO

Se você não consegue enxergar o quão desumanizante a prostituição é, que ela é algo tão violento e violante a tal ponto que sua existência devia ser inconcebível e não naturalizada pelo discurso de que prostituição pode ser empoderadora e libertadora; se você não consegue enxergar isso e acha que pode haver algo empoderador ou livre/libertador na prostituição, se você defende que a prostituição poder ser empoderadora ou libertadora das mulheres, você ainda não entendeu que mulheres são humanas, que mulheres são SERES HUMANAS. Você ainda está raciocinando e dando sentido à mulher dentro da lógica e dos códigos do patriarcado, você está pensando e significando a mulher dentro da lógica, ou seja: você acredita que mulher é coisa, é objeto, é um troço que existe pra servir a homens, bastando que eles comprem seu consentimento - quando consentimento não pode ser comprado e quando isso acontece o nome disso é ESTUPRO.

E isso é ainda mais desesperador quando você é uma mulher.


As relações entre homens e mulheres nunca serão "normais", porque são fundadas na desigualdade. A prostituição serve de manutenção à hierarquia criada por homens e que estabelece a supremacia do sexo masculino sobre o feminino.

Mulheres são frequentemente apontadas como "interesseiras" ou "aproveitadoras" quando ao reproduzir seu papel social de inferior, dependente, subjugada, em alguns aspectos dessas relações desiguais elas aparentemente tiram delas algum "proveito".

Mas a verdade é que nenhum proveito ou benefício há, para mulher, em relações fundadas na desigualdade. E, portanto, não há nelas nenhuma liberdade ou empoderamento. A prostituição/estupro é o fundamento dessas relações de siguais entre homens e mulheres, e o fundamento da prostituição/estupro reside no fato de que, historicamente, a dominação do sexo masculino sobre o feminino se deu, originalmente, quando os homens expropriaram das mulheres os seus meios de sobrevivência - inclusive seu corpo, seu sexo, sexualidade e capacidades reprodutivas - subjugando o sexo feminino e convertendo fêmeas humanas em mulheres ao convencê-las que, por serem inferiores aos homens, deviam a eles temor e subserviência, pois que, expropriadas de meios de subsistir, encarceradas no espaço doméstico e reduzidas a incubadeiras dos herdeiros do macho, sua subjetividade, autoimagem, autocompreensão sobre si e sobre o que é ser mulher, é forjada na sua própria servidão, inferiorização e dependência em relação ao sexo masculino. 

Junto com o sequestro de seus meios de subsistência, toda humanidade da mulher também é sequestrada pelo sexo masculino, agente e sujeito do processo de limitação, redução e exploração da fêmea humana.

Nesse processo de expropriação, de desumanização, de empobrecimento, o corpo e o sexo feminino são convertidos, pelo homem, em moeda. Isso acontece para que, subjugadas, desumanizadas, empobrecidas, as mulheres temam constantemente o medo do estupro e cedam ao casamento, ao contrato social e promessa que os homens fazem de nos protegerem da violência deles mesmo e de nos prover da pobreza que eles mesmos nos causam. Às mulheres que se recusam ao casamento (lésbicas, rebeldes, insubordinadas), a proteção dos homens é vetada: como mulheres passíveis de terem seus corpos acessados por todos os homens (já que abriram mão de ser propriedade de um único) resta a aceitação do estupro mediante a um simbólico pagamento, ou seja: a aceitação da conversão de seus corpos e sexo à mercantilização negociável entre todos os homens. Isso serve, ao mesmo tempo, como instrumento de controle social das mulheres prostituídas, visto que sua subsistência continua subordinada aos homens, que negam-lhe trabalho, terras e acesso à produção ao mesmo tempo que - não interessando-lhes a morte delas - convertem seu corpo em mercadoria, condicionando a subsistência delas a submissão ao estupro mediante pagamento. O pagamento, que não as deixa morrer de fome, existe para que permaneçam vivas e sirvam de exemplo, em toda sua miséria, servidão sexual e vitimização, a todas as mulheres, para que todas as mulheres não se rebelem contra o casamento, contra converter-se em propriedade de um único homem, pra mostrar a elas que a alternativa a isso é ainda muito pior. 

Esse é o fundamento da prostituição: expropriada e destituída por homens de qualquer forma de sobreviver, recusando o casamento como forma de receber proteção e proveção masculina contra a violência e a miséria que eles mesmos causam as mulheres, seu corpo é convertido por homens em mercadoria para que ela continue no subjugo masculino e ainda sirva de exemplo a outras mulheres.

E como não podia deixar de ser, todo esse processo de origem das relações de prostituição precisa ser apagado, o verdadeiro sentido da prostituição vai sendo apagado pela História escrita pelos homens, pela Arte e pela Literatura produzida pelos homens, pela Filosofia, Sociologia e por Teorias produzidas por homens... durante toda história das sociedades patriarcais, os homens, em suas práticas e discursos, emprenham-se para dar outros significados pra prostituição, para que seu significado mais fundamental e mais verdadeiro seja esquecido, seja apagado. Mas esse significado ressurge, vez ou outra, na história, pelos discursos de mulheres, pelas memórias das mulheres, pelas falas e vivências das mulheres, esse significado ressurge porque é real, porque ele é fruto da violência e da dominância masculina, que os próprios homens não conseguem esconder. Por isso, mesmo com todos discursos falseados sobre a prostituição pra esconder seu verdadeiro caráter, seu sentido mais fundamental, os homens não conseguem esconder seu verdadeiro significado, porque ele reside e nasce e renasce na própria violência masculina, real e iminente em toda sociedade patriarcal: prostituição é a DEGRADAÇÃO das mulheres pelos homens. 

Não se enganem: esse é o verdadeiro sentido da prostituição. Num sistema patriarcal em que mulheres são forjadas como gênero a partir da expropriação de seus meios de subsistência e que, portanto, não são sujeitas de si, se suas histórias, narrativas e direitos, a prostituição é muito menos sobre o "direito" de mulheres venderem seus corpos e muito mais sobre o direito dos homens de comprá-los. Não há nenhum benefício, empoderamento ou liberdade pra nenhuma mulher em estar numa função que tem como fundamento a servidão feminina. Mas os homens farão de tudo para que não enxerguemos isso, para que a gente não dê conta disso, inclusive tentar nos convencer que o acordo que eles estabeleceram entre eles sobre o direito de todos os homens aos nossos corpos e aos nossos sexo são, na verdade, ou um benefício, ou uma escolha empoderadora ou uma libertação pra nós.