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terça-feira, 21 de junho de 2016

EU, ANA PAULA, SAFO E PANDORA.



Hoje eu acordei com uma angústia danada, daquelas que permanecem o dia inteiro doendo e apertando o peito, como uma crise de ansiedade anunciada, que a gente vai contendo pra não explodir dentro da gente - que a gente vai segurando pra poder viver a vida, fazer as coisas, seguir em frente.

Acordei com lembranças (é possível que eu tenha sonhado e não lembre) de um episódio da minha adolescência, quando, lá por volta dos meus 16 anos, saí pruma baladinha com umas amigas da mesma idade. Morávamos todas no mesmo bairro, no subúrbio do Rio, num daqueles bairros pequenos, em todo mundo conhece todo mundo. Lá encontramos uns rapazes, amigos da gente, e que também estavam com seus amigos. Um dos amigos dos amigos se interessou por mim, eu não senti nenhum interesse por ele, mas diante do apelo das amigas (ele é bonito, ele faz faculdade, ele trabalha, tem dinheiro, tem carro - e todos esses símbolos de poder que somos ensinadas a valorizar em homens) e do gesto costumeiro de invalidar minha própria vontade e me obrigar a sair com homens que se interessavam por mim, mais uma vez eu não consegui dizer não, e, constrangida, desconfortável, com um sentimento que eu ainda não sabia nomear, eu fiquei com o cara. Eu simplesmente não consegui dizer não ao homem - e esse é um sentimento que só as mulheres conhecem.

Ficamos e ele sugeriu a todos que terminássemos a noite na casa dele - os pais dele estavam viajando, a casa era grande, tinha espaço e bebidas. Mais uma vez, fui convencida, eu não queria ir (no fundo, eu sabia o que isso significava), mas fui convencida, por ele e por todos, inclusive pelas minhas amigas, que estavam empolgadíssimas ficando com outros rapazes do grupo. Mais uma vez, não consegui dizer não, dizer "Não, eu não quero".

Ele morava numa casa enorme, num lugar bem ermo no bairro, ao fim de uma rua sem saída e deserta, uma casa isolada em cima de uma pedra. Meu estômago revirava, sentia um aperto no peito (como esse, com que acordei agora), uma sensação ruim, que eu mesmo não entendia e não era capaz de dar significado - afinal, eu devia estar feliz e empolgada, estava saindo com um dos caras mais bonitos, mais bem sucedidos e mais cobiçados pelas meninas do bairro, e ele me quis (não é assim que a gente, a vida toda, é ensinada?) Mas eu não estava, me sentia estranha, constrangida e desanimada.

Na casa dele, todos bebemos e conversamos, ouvimos música e, aos poucos, as outras pessoas começavam a ir embora. Minhas amigas todas tinham conseguido um par, e também foram saindo. Eu tentei ir embora com uma delas, mas, mais uma vez, não consegui obedecer minha vontade: diante da insistência da amiga (Como eu poderia ser louca de não querer ficar com aquele cara?) e do próprio cara ("Calma, fica comigo, eu não vou fazer nada que você não queira."- repetidas vezes), eu fiquei, mesmo constrangida, sem vontade, com o estômago retorcendo e com aquela angústia no peito. Eu tentava não pensar, não entender o que era aquilo que acontecia comigo: Por que eu não ia querer ficar com um cara bonito, bacana, educado, bem sucedido e com dinheiro? Por que eu não queria? Por quê? Todas as minas da minha idade queriam, por que eu não ia querer? Mas eu simplesmente atropelava meus sentimentos, sufocava eles, esses mesmos que eu não conseguia nomear, e não conseguia dizer não, e sempre cedia às investidas dos caras.





Todo mundo foi embora e eu fiquei. Deitamos numa rede na varanda, conversando e bebendo, e o cara foi ficando mais à vontade, é claro. Nessa hora, além do constrangimento e do desconforto, do estômago revirado, da angústia, eu também senti MEDO. Eu estava sozinha na casa de um homem que mal conhecia e ele já estava em cima de mim, tentando tirar minha roupa.

Com muito jeito, de maneira delicada e educada, pra não aborrecê-lo e nem desagradá-lo (como somos bem ensinadas a agir com homens, sobretudo quando se diz respeito a contrariar a vontade deles), eu consegui dizer a ele que queria ir pra casa. É claro que ele não me acatou, dizia pra eu ficar calma, insistia que não ia fazer nada que eu não quisesse, e que a gente ia ficar ali só conversando e namorando um pouco, me dizia como eu era linda, maravilhosa e como eu tinha o pode de excitá-lo e como ele estava feliz em estar ali comigo - estratégia comum aos homens, que sabem muito bem manipular os signos que o patriarcado desenha para nós, mulheres, pra nos coagir a ceder a vontade deles como se essa fosse, na verdade, a nossa própria vontade, ou como se nós tivéssemos sobre eles algum poder que deve ser celebrado e valorizado.

Por fim, constrangida, com angústia e medo, depois de insistir muitas vezes, mas ainda sem perder a doçura e a gentileza, por conta do temor de desagradá-lo, eu consegui convencê-lo a me levar em casa. Muito a contragosto, já completamente mudado, de cara fechada e resmungando, ele me deixou na porta de casa.

Dessa vez eu havia escapado. Senti um alívio imenso. Mas a angústia e o constrangimento permaneceram no peito, do mesmo jeito que eu tô sentindo agora, como uma grande explosão querendo fugir de uma caixa fechada, que eu trancava com força e não permitia que saísse, que eu ainda não permito que exploda.

Dessa vez eu havia escapado.

Mas me lembrei, também, das outras várias vezes em que vivi situações como essa, das dezenas de outras vezes que eu não consegui, que eu, simplesmente, por uma força que eu não sabia explicar, eu não consegui dizer não. Que lá, na hora "H", numa outra casa, num motel, ou dentro de um carro, com um outro cara, em outras várias ocasiões, eu não consegui, eu simplesmente não consegui dizer não. E apertei com força a tampa da caixa do meu peito, tranquei bem trancada a angústia, o desconforto, o constrangimento e o medo, e cedi, sem nenhuma vontade, ao sexo com os caras.

Hoje eu sei que fui estuprada. Que diversas vezes na minha vida fui estuprada. E hoje eu sei nomear esse sentimento, que eu trancava dentro, bem forte, e sobre o qual eu não queria pensar, porque eu queria ser como as outras, eu só queria ser aceita e feliz como as outras meninas, queria ser legal e normal, queria ser amada como elas. Ou como eu achava que elas eram.

Hoje eu sei nomear esse sentimento, mas, por muito tempo, não me permitiram saber do que ele se tratava. Eu sei nomear esse sentimento e a sua causa: chama-se HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA.

Eu abri a caixa. Deixei explodir meus medos. Estou juntando cada sentimento e aprendendo o nome deles. E quando eu abri meu peito, e nomei meus sentimentos, eu aprendi a nomear também quem eu sou. <3


terça-feira, 14 de junho de 2016

SOBRE PROSTITUIÇÃO

Eu realmente queria compreender o que as liberais entendem como "agência" e "empoderamento" quando falam de uma atividade que tem como FUNDAMENTO a redução absoluta de pessoas à mercadoria.

Sim, porque caso vocês não tenham se dado conta ainda, a prostituição só é passível de ser instituída numa sociedade que tem como acordo social a existência de um grupo de pessoas que pode ser destituído de humanidade pra ser objetificado e mercantilizado.

Assim: o fundamento primeiro da prostituição - em qualquer condição -, aquele que torna possível sua existência enquanto fenômeno e fato social, é a objetificação plena do indivíduo, ou seja: a desumanização, a destituição do caráter humano da pessoa para sua redução à mercadoria.

A prostituição não pode ser compreendida a partir de explicações individualizantes. A prostituição só pode ser compreendida a partir da dinâmica sócio-cultural que permite e mantém sua existência e suas significações. Somente numa sociedade que institui e normatiza mulheres como objetos e cidadãos como consumidores a prostituição - que é fundamentalmente o acordo de autorização social para que um grupo desumanize outro e o torne objeto de suas vontades - a prostituição pode existir, pode fazer sentido e, mais: pode ser pensada como "escolha" da mulher prostituída. Fora desse contexto, de uma sociedade que vê como possível e natural a objetificação de mulheres e o direito do homem de consumi-las, a prostituição não poderia sequer ser pensada - a não ser como violência, barbárie desumanização e exploração, que é o que ela realmente é para as mulheres.

Que "agência" e que "empoderamento" pode existir numa atividade fundamentada nessas premissas? Que "agência" e que "empoderamento" podem existir em uma pessoa que "escolhe" ser desumanizada e objetificada pra ser comercializada para atender as demandas do outro? Onde liberais apontam a "agência" e o "empoderamento" eu só consigo ver um terrível erro de interpretação sobre o que a prostituição realmente é.

A perspectiva de que a prostituição pode ser uma atividade empoderadora e libertária é uma perspectiva PATRIARCAL de positivação e naturalização da objetificação e mercantilização das mulheres assim como daquilo que há de mais fundamental pra existência de qualquer ser humano: nossos corpos. É fácil para mulheres acreditarem que a prostituição pode se empoderadora e libertária porque é fácil para mulheres acreditarem nos discursos patriarcais que positivam e naturalizam o nosso subjugo aos homens e a as suas vontades: fomos socializadas pra isso.

O discurso patriarcal defende, supervaloriza e romanceia a prostituição e diversas outras violências contra mulheres por um simples motivo: interessa ao patriarcado nos convencer que sermos objetificadas e exploradas é bom pra nós, interessa ao patriarcado nos convencer disso porque é bom para os homens nos objetificar e explorar. Interessa ao patriarcado escamotear os fundamentos da exploração sexual feminina e florear a violência com falsas promessas de empoderamento e libertação porque interessa ao patriarcado MANTER as atividades de exploração sexual feminina.

O discurso e a prática feminista SEMPRE existirão no sentido de criticar e romper com os discursos e as práticas patriarcais - mesmo as mais veladas e naturalizadas - e NÃO DE REAFIRMÁ-LAS E ENDOSSÁ-LAS.

Logo, defender prostituição como libertação e empoderamento feminino é um discurso PATRIARCAL e não feminista.

Rompa com as perspectivas patriarcais sobre a prostituição e as violências contra nós, rompa com as narrativas e explicações, impregnadas de sentido patriarcal, que romantizam, idealizam, fetichizam e manipulam a realidade sobre esses temas, conheça as perspectivas, as narrativas e os sentidos que as mulheres e as feministas produzem sobre a prostituição e outras violências naturalizadas pelo patriarcado contra nós. Leia, pesquise, investigue, ouça as mulheres. E privilegiem nossas narrativas e produções de sentido sobre a realidade em vez de valorizar as explicações fundamentadas nas perspectivas de homens.




"Dizer que as mulheres têm o direito de se vender, é disfarçar o fato de que homens têm o direito de comprá-las" - Maud Olivier

PROSTITUIÇÃO É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA


Em maio de 2016, um movimento liberal de mulheres denominado Marcha das Vadias Rio de Janeiro, liderado por um travesti cafetão e político profissional, que há alguns anos já vem defendendo a regulamentação da exploração sexual de mulheres por cafetões através da PL Gabriela Leite, começou também a encabeçar um movimento criminoso de apologia, defesa e incentivo ao turismo sexual. O movimento, liderado por esse travesti cafetão, aproveitou-se da ocasião da realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro e de todo o debate que vem sendo gerado pra COIBIR o turismo sexual durante o megaevento esportivo pra liderar uma campanha de liberação do turismo sexual no Brasil. Com os argumentos de que alguma mulheres "escolhem" serem prostituídas e que o turismo sexual as beneficiaria, ignorando a realidade de que o turismo sexual é uma atividade misógina, predatória e violenta que trafica, explora, mutila e mata MILHARES de crianças e mulheres no mundo inteiro, e reduzindo a questão a um "tabu" moral a ser superado, o travesti cafetão lidera mulheres do Rio a apologizarem e incentivarem o turismo sexual através desse movimento criminoso em benefício próprio.

Esse texto foi escrito por ocasião de uma série de levantes e contestações de feministas abolicionistas contra esse movimento bizarro e criminoso.



Se prostituem? Ou são prostituídas por homens? Quem é o sujeito da prostituição? Quem é seu objeto?

PROSTITUIÇÃO NÃO É ESCOLHA INDIVIDUAL, É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA


Nenhuma mulher "escolhe" ser prostituída, NENHUMA. Em nenhuma circunstância.

Simplesmente porque a prostituição não pode ser compreendida em termos de escolhas individuais, isso é uma falácia neoliberal. Prostituição é um SISTEMA de escravidão feminina.

Não existe mulher que "se prostitui", mulher não prostitui a si mesma, ela só está prostituída porque os homens são os agentes da prostituição, é deles a demanda por prostitutas, são eles os sujeitos da prostituição, logo, mulheres não "se prostituem" ["se" é partícula reflexiva, que indica que alguém faz algo pra si mesmo e não pra outrem], mulheres SÃO PROSTITUÍDAS POR HOMENS.

Não há 2 sujeitos da prostituição, o sujeito da prostituição é o HOMEM - em qualquer circunstância - a mulher é o OBJETO da prostituição.

Ser objetificada significa ser REIFICADA.

Reificação é fundamentalmente um processo de DESUMANIZAÇÃO.

Nenhuma mulher "escolhe" ser reificada, ela apenas não teve chances ainda de compreender que está sendo porque o patriarcado NATURALIZA o processo de reificação das mulheres e as proíbe de narrarem pela perspectiva das mulheres as nossas versões das histórias de subjugo e dominação masculina, assim como nos impede que nos reconheçamos nessas histórias e umas nas outras. O patriarcado nos impõe a sua própria versão do que a prostituição é para as mulheres: "liberdade sexual", "escolha", "empoderamento". Mas basta ouvirmos o que estão dizendo a imensa maioria das mulheres prostituídas por homens para saber que essa versão é FALSA, que essa é uma versão PATRIARCAL que não condiz com a realidade e nem com os relatos da GRANDE MAIORIA das mulheres prostituídas.

Vamos parar de defender prostituição como se isso fosse feminismo porque NÃO É.

PROSTITUIÇÃO É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA. SISTEMAS NÃO SÃO FENÔMENOS INDIVIDUAIS, SISTEMAS SÓ PODEM SER COMPREENDIDOS DENTRO DE UMA DINÂMICA SOCIAL COLETIVA .

Parem de propagar o liberalismo em nome do feminismo porque liberalismo NÃO é feminismo.

Feminismo que defende prostituição como "escolha" individual é "feminismo" liberal, só que feminismo e liberalismo são práticas CONTRADITÓRIAS. Logo, "feminismo liberal" NÃO EXISTE, é uma FALÁCIA patriarcal pra manipular e dividir as mulheres".


Recorte da "vitrine" que expõe as mercadorias à venda no site Bahamas, um dos mais tradicionais clubes de prostituição de luxo em SP, do cafetão Oscar Maroni, que faz sua fortuna em cima da exploração sexual, da mercantilização e da violência sobre os corpos das mulheres.




Leitura básica e fundamental sobre o tema: PROSTITUIÇÃO E SUPREMACIA MASCULINA de A. Dworkin.

terça-feira, 31 de maio de 2016

SOBRE FEMINISMO, FÊMEAS HUMANAS, ETIMOLOGIA E A SOCIOGÊNESE DE NOSSA OPRESSÃO

E CONTRA A COLONIZAÇÃO MASCULINA DE ESPAÇOS E NARRATIVAS FEMINISTAS.

Pessoas do sexo masculino, socializadas a partir do falo, do falocentrismo e da misoginia, sempre definiram o que é ser mulher, o que é a nossa condição. A partir das definições falocentradas da mulher é que surgiu o gênero, o gênero feminino, os estereótipos de gênero. Gênero nada mais é do que: a definição masculina do que é mulher a partir de necessidades e sentimentos centrados nesse sujeito falocentrado. Às mulheres nunca foi dada a possibilidade de definir, nós mesmas, a partir de nossas experiências, o que é a condição feminina. NUNCA. É fundamental pra manutenção do patriarcado nos negar isso e garantir que pessoas do sexo masculino nomeiem, definam e narrem o que é ser mulher, o que é a condição feminina. A diferença é que, antes, eles faziam isso e era patriarcado e hoje fazem isso e chamam de feminismo/transfeminismo.
Agora, não satisfeitos em invadir e nos silenciar dentro do único espaço em que conseguimos conquistar o direito de dizer, narrar e nomear a nós mesmas a partir de experiências que a vivemos materialmente - e não sob a forma de um sentimento subjetivo a partir de um fetiche patriarcal do que seria ser mulher - os homens estão disputando conosco o direito de definir o que é ou não o feminismo: se se ocupar somente de pautas, debates, demandas, opressões e violências que dizem respeito apenas àquelas que, historicamente vem sendo dominadas através de seu sexo, da materialidade de seus corpos, da exploração de suas capacidades reprodutivas, e não contemplar o sentimento de homens, não é feminismo, é cisativismo.

Homens, além de acreditarem que seus sentimentos devem ter prioridade acima da realidade histórica e material que violenta milenarmente o sexo feminino e forja o gênero feminino, querem nos proibir de dizer o que é ser mulher no patriarcado e nos proibir de dizer que colocar como prioridade a segurança, a vida e a integridade de pessoas nascidas sob a materialidade do sexo feminino não é feminismo, é cisativismo.

Há milênios homens vêm nos roubando o direito de dizer nós mesmas o que somos, o que é ser mulher. O único espaço que tínhamos pra isso era o feminismo, agora o poder discursivo e a força colonizadora poderosa da narrativa falocentrada e misógina no patriarcado tem tentado nos impedir também de afirmar que o feminismo é um movimento que luta exclusivamente por causas e pautas relativas às violências que sofremos pela imposição de ser mulher no patriarcado e não por homens, independente de como eles se sentem em suas subjetividades.

A palavra "feminismo" deriva, etimológica, histórica, social e materialmente, do substantivo "fêmea" - que corresponde, numa vasta classificação da diversidade natural, àquelas seres que, na natureza, tem uma característica específica: o sexo feminino. Feminismo, portanto, diz respeito a um movimento de um grupo específico de pessoas que sentindo materialmente em sua vivência cotidiana a hierarquização que os homens promovem das diferenças sexuais naturais pra definir, dominar e explorar o sexo feminino, se voltaram contra esse sistema, de exploração da fêmea humana pelo sexo masculino - daí o movimento FEMINISTA. A exploração das mulheres é sexual. É através da hierarquização das diferenças sexuais que os homens criam e naturalizam a definição de "gênero feminino" e legitimam a Divisão Sexual do Trabalho. A Divisão Sexual do Trabalho pela ideia de gênero feminino é a forma organizada e sistemática pela qual os homens têm mantido a exploração e opressão das mulheres, e ela se dá pelo sexo e não pela identidade de gênero. A exploração das mulheres tem origem no sexo e não no gênero. O gênero é uma estratégia masculina violenta de hierarquização das relações entre machos e fêmeas humanas para a dominação e exploração dessas, e não o fundamento da nossa dominação ou, muito menos, um fenômeno natural com que se possa se identificar ou não.

Feminismo é sobre fêmeas humanas, sobre a exploração de nossos corpos, de nosso sexo, de nossa capacidade de gerar e reproduzir e de tudo o mais que, historicamente, têm se desdobrado a partir dessa raiz, desse fundamento opressor. Isso é o feminismo. O nome do movimento que se ocupa com sentimentos, demandas e subjetividades de pessoas do sexo masculino acima da materialidade dos corpos das mulheres se chama PATRIARCADO.

Portanto, feminismo que se ocupa de pautas, necessidades e sentimentos de pessoas nascidas no sexo masculino NÃO EXISTE. Transfeminismo NÃO EXISTE. Isso é COLONIZAÇÃO do movimento feminista por sujeitos falocentrados, aqueles que sempre foram os sujeitos do discurso, os sujeitos que se instituíram e se autolegitimam uns aos outros na autoridade de definir o mundo e a nossa condição.

Feminismo que se ocupa de sentimentos, vontades e demandas de pessoas pertencentes à casta dominante, à casta que historicamente tem definido, instituído e limitado o sexo feminino a partir das definições de "gênero feminino" não é feminismo, é backlash, é reação patriarcal, independente de como as pessoas do sexo masculino se sentem ou com o que se identificam.

Na mesma linha de pensamento, podemos afirmar que transmisoginia também não existe, transmisoginia também é backlash, é reação patriarcal. A expressão "misoginia" não significa exatamente - ou simplesmente - "ódio às mulheres", mas, antes, e fundamentalmente, a palavra misoginia nomeia o ódio ao SEXO FEMININO e a tudo que diz respeito a ele. E, apenas a partir desse sentido fundamental, é possível compreender e nomear o que é ser mulher no patriarcado, e nenhum outro grupo de pessoas está mais apto ou autorizado a dizer o que é ser mulher do que aquelas que são o sujeito da misoginia: o sexo feminino. "Misoginia" deriva da palavra grega gynè, significa "bainha"; tanto a palavra gynè quanto a palavra vagina - que significa "bainha de guardar espada" -, são definições falocentradas do sexo, da anatomia, do corpo, da condição feminina - e isso é uma característica comum a todas as sociedades patriarcais: definir mulher como "gênero feminino" a partir da redução de nossas especificidades ao desejo, ao corpo, ao sexo masculino. Portanto, podemos dizer que, com toda diversidade regional, cultural e social que perpassa a experiência feminina nas diversas culturas patriarcais, a definição da condição feminina a partir da redução de nossas anatomias, fisiologias e existências à centralidade do falo e do sujeito falocentrado é a característica comum de qualquer pessoa do sexo feminino em qualquer sociedade patriarcal, é o que nos faz mulher. Misoginia é a palavra pra designar, então, o ódio àquilo que é odiado pelo patriarcado e que nos faz mulher: O SEXO FEMININO e tudo que diz respeito a ele. Misoginia, ao mesmo tempo que nomeia o ódio específico ao sexo feminino, traz na sua própria designação todo ódio e desprezo do sexo masculino pelo feminino, definido pelo primeiro a partir de si mesmo como algo que existe em função do pênis, a bainha de guardar a espada - raiz também de toda lesbofobia e potência de aniquilação de lésbicas e suas narrativas. Assim, não pode ser nenhum absurdo dizer que misoginia contra pessoas do sexo masculino também é algo que NÃO EXISTE, que transmisoginia NÃO EXISTE, que insistir nisso também é backlash, reação patriarcal.

Portanto, não é difícil chegar a conclusão de que cisativismo também NÃO EXISTE. O nome do movimento que tem como prioridade exclusiva pessoas nascidas no sexo feminino e suas pautas, demandas e opressões fundamentadas na exploração sexual promovida pelo patriarcado contra pessoas nascidas no sexo feminino e definidas por ele como mulheres é FEMINISMO.

Se você faz parte de um movimento que ignora, silencia e promove o apagamento de tudo isso, da raiz de nossas opressões, do fundamento do qual se desdobram todas as outras práticas de opressão contra nós, saiba: esse movimento não é feminista, na verdade, ele é antifeminista, antimulher.

Eu sou FEMINISTA. Feminista Radical. Minha opressão não tá na identidade de gênero, minha opressão é SEXUAL.

Feministas radiciais existem e resistem. O transativismo não vai nos silenciar. Nós não temos medo da colonização masculina sobre nossos corpos, nosso sexo, nossas práticas, nossos discursos e narrativas, nós a estamos enfrentando há milênios.

domingo, 15 de maio de 2016

SOBRE GASLAITE E MANIPULAÇÃO EMOCIONAL.

O solo linguístico, epistemológico e cognitivo em que os homens constroem suas relações conosco [mulheres] é o solo da maternidade compulsória e da culpa. Eles sabem exatamente como plantar sua dominação sobre nós nesse chão. Cada um deles sabe exatamente como se apropriar de condições e valores historicamente introjetados e naturalizados em nós, mulheres - às vezes até muito antes da chegada de algum deles em nossas vidas -, e como manipular diálogos, gestos e situações pra nos fazer patinar improdutivamente nesse solo sem conseguir fazer prevalecer as nossas razões e nos defender das investidas deles; e, então, eles nos fazem sentir culpadas e responsáveis pelas situações que eles mesmos criam, pelas merdas que eles mesmos fazem e dizem, e, ainda, por nos obrigar a admitir, fazer e falar coisas que, no fundo, sabemos, não merecemos, desejamos ou sentimos vontade de admitir, fazer ou falar. E eles fazem isso sem muito esforço: apenas nos colocando de volta no lugar da culpa e da negligência a nossas próprias razões e sentimentos, quando nós estamos lutando fortemente pra sair desse lugar, quando nós estamos lutando fortemente contra esse chamado ancestral ao qual a história das mulheres e de suas violentas e incapacitantes relações com os homens nos impele a obedecer.

Homens são violentos e dominadores, mesmo quando parecem sensíveis e empáticos a nós. Assim eles nos diminuem, nos reduzem, nos subjugam, nos torturam e adoecem (física e psicologicamente), nos enlouquecem e incapacitam, para, então, legitimar suas próprias ideias, discursos e teorias de que somos naturalmente menos capazes, mais frágeis e emotivas que eles e, em seguida, nos classificar como loucas, exageradas e histéricas a cada vez que tentarmos resistir frente as investidas deles pra nos manipular, agredir e reduzir pra nos fazer caber nesses estereótipos que eles mesmo forjam e nomeiam a partir da condição que eles nos impõem através de suas relações violentas.

Observem, percebam, racionalizem e aprendam a se defender. E, sobretudo: falem!, verbalizem e narrem o que está acontecendo, o que vocês estão percebendo sobre o que eles estão fazendo, desvelem e explicitem as estratégias deles, na cara deles, e reafirmem que não vão sucumbir a elas, justamente porque as conhecem e sabem como funcionam. Não se calem! Confiem nos seus próprios sentimentos e na sua própria capacidade de arrazoar. Aprendam a não duvidar de si mesmas e de seus próprios sentimentos e razões. Sejam firmes!

O gaslaite (gaslighting, no original em inglês) é uma ferramente poderosa que o patriarcado confere aos homens pra adoecer e enlouquecer mulheres.

Sejam fortes, não duvidem de si mesmas!


SOBRE ANSIEDADE, DEPRESSÃO E CIÊNCIA E MEDICINA CAPITALISTAS E PATRIARCAIS

Xô contar uma coisa pra vocês. Eu não sou uma louca irresponsável, tapada e idiota que se "recusa a ser ajudada" porque se nega a tomar as drogas alienantes e viciantes que a indústria farmacêutica impõe às pessoas como curas milagrosas e individuais pra sofrimentos causados por doenças sociais e torturas coletivas. Eu sou uma mulher adulta, inteligente e capaz, privilegiada - reconheço - com acesso à informação e ao conhecimento. Existem pesquisas, muitas pesquisas, de gente séria, profissional, dedicada, que questiona e critica radicalmente a forma como a medicina vem conduzindo os estudos sobre as causas e o tratamento de depressão, ansiedade e outros transtornos, e eu estou estudando, pesquisando, lendo, buscando essas pessoas e o que elas tem pra dizer, porque eu não acho que pessoas que se dedicam seriamente, em estudos, em pesquisas, em tempo e esforços pra questionar um cânone - e que são apagadas, negligenciadas e boicotadas por isso - o façam por brincadeira. Eu podia escolher fingir ignorar tudo isso e me deixar drogar por substâncias viciantes e que causam dependência e que de nada - NADA - diferem de todas as outras drogas que não são vendidas nas farmácias, a não ser por questões unicamente de legislação e controle social - no pior sentido que a expressão carrega. Eu podia fingir que acredito que tratar transtorno de depressão e ansiedade com Rivotril e Prozac, ou outra droga qualquer legal e lucrativa pra industria farmacêutica, é muito diferente do que tratar com cocaína e álcool, mas isso seria crer que existe sim alguma diferença fundamental entre essas drogas que não apenas a legislação sobre elas, e eu não acredito nisso. Eu podia fingir que não sei tudo isso e correr pra solução que toda a sociedade apresenta pra mim como uma forma rápida e mágica de alentar minhas dores e angústias e me entupir de drogas, tal qual um dependente de cocaína, mas me achando muito mais inteligente e perspicaz que ele. Eu podia fingir que não sei de tudo isso e sucumbir à oferta de alívio imediato que a indústria das drogas me oferecem quase como um entretenimento. Mas eu não vou. Eu não vou porque eu acredito em mim, na minha força, na minha inteligência e na minha capacidade. E, sobretudo, porque eu não acredito em soluções fáceis pra tratar um problema que me maltrata e que se cria e perdura há quase 30 anos: a violência patriarcal a que sou diariamente submetida.

Compreender como funciona e não sucumbir a uma das empresas mais ricas e poderosas do capitalismo, que se mantém milionária e no poder vendendo seu produto, e que vende seu produto deixando as pessoas doentes e as doenças crônicas em vez de realmente curá-las, também é político, também é luta, também é resistência, também é tratamento, também é importante e necessário.

A indústria farmacêutica está entre as mais ricas e poderosas do mundo, e isso não é à toa, e isso não é pouco, e isso não pode ser ignorado. Fomentam uma ética perversa e violenta - em benefício próprio e em benefício do sistema que a enriquece, o capitalismo -, e que tem norteado a própria ética médica, científica e de toda produção de conhecimento de academias e centros de pesquisas médicas e que não visa outra coisa senão manter as pessoas doentes e sob tratamento o maior tempo possível, para que possam vender seus produtos e continuar lucrando. Até quando vocês vão ignorar isso? Até quando vocês vão achar que é mais confortável e menos doloroso o autoengano?

Rompam com essa merda. Ou admitam que confiam e acreditam na indústria que vocês mesmos afirmam saber que adoece e mata gente porque lucra com isso.

O conhecimento é mais eficaz que qualquer droga. Resistir, criar e fomentar alternativas ao capitalismo e ao patriarcado - e à ciência e à medicina produzidas a partir deles - também é uma forma de cura. Não subestimem as mulheres que o fazem.


sexta-feira, 22 de abril de 2016

TRANSATIVISMO E TRANSFEMINISMO: COLONIZAÇÃO MASCULINISTA DO MOVIMENTO FEMINISTA

Sabe o que pessoas do sexo masculino "sentem" quando dizem que "se sentem" mulheres? O que eles têm é o desejo por serem diminuidos, objetificados, subjugados, violentados, submetidos. Porque isso é o que a sociedade diz à pessoas que recebem a socialização a partir do sexo masculino, do falo, que é o sexo e o gênero feminino.
O nome disso é fetiche. É fetichização da condição de subjugo feminina.
A sociedade diz a nós também, e nós, que vivemos materialmente essa condição imposta violentamente - e não como desejo realizado ou como fetiche -, somos as únicas que podemos dizer sobre nós mesmas e nossa condição, somos as únicas que podemos narrar e nomear o que é ser mulher - já que isso sempre foi feito por homens.
Parem de enfiar homens no feminismo. Parem de permitir que homens continuem narrando e definindo o que é a nossa condição, o que é ser mulher.


SOCIALIZAÇÃO, SUBMISSÃO, BDSM, SEXO VIOLENTO E ESCOLHA PELA PROSTITUIÇÃO

Só existe BDSM (práticas sexuais sadomasoquistas), mulher que "gosta" de apanhar no sexo e mulher que "escolhe" ser prostituída porque a definição patriarcal de mulher como objeto do homem, a nossa desumanização, é tão fortemente introjetada em nós, no que entendemos como "eu", como ser mulher, que nós passamos a acreditar que sermos submetidas sexualmente por homens é, não somente nossa função, mas também uma certa forma de poder que [supostamente] exerceríamos sobre eles. Sobretudo, nós cremos que, dentro do que nos foi introjetado pela socialização como "ser mulher", os homens têm o DIREITO de nos objetificar, nos diminuir, nos agredir, nos submeter, e somos convencidas por discursos fetichistas que quanto menos resistirmos e quanto mais permitimos o subjugo e a violência que eles desejam impor contra nós em relações sexuais, mais poder de sedução temos sobre eles - quando seduzir é sinônimo de ser objetificada, submetida, humilhada e violada por essa objetificação.

Esse é o fundamento do BDSM, esse é o fundamento da lógica que impele mulheres a "gostar de apanhar" no sexo, isso é a logica que impele mulheres a "escolher" ser prostituída por homens.


Site de BDSM com práticas de ESTUPRO.

VIOLÊNCIA, SOCIALIZAÇÃO E HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA II


Os abusos sexuais que sofri de não lembro qual idade até os 11/12 anos, arruinaram minha personalidade, meu emocional, minha autoestima e minha sexualidade, moldando-as de forma perversa. Por crer qur a culpa foi minha, porque toda sociedade e minha família me fizeram acreditar, eu, criança, queria saber o que fiz de errado pro meu próprio tio me abusar. Eu era suja, imoral, eu destruí minha família, eu sou digna de ódio dos homens. E a minha vida toda eu acreditei que precisava me submeter a eles pra ser aceita, reconhecida. E eu não tenho a conta de quantas vezes fui violentada, humilhada, agredida, estive em situação de risco, tudo pra agradar homem, pra ser aceita por eles. Relacionamentos abusivos, compulsão alimentar, anorexia, bulimia, autoestima destruída, insegurança, deixei de estudar, de investir em mim, fui impelida a me boicotar, fui anulada, submetida, vivi boa parte da minha juventude submetida a homens em relacionamentos abusivos.

Isso nunca foi amor. Isso é revitimização. Isso é cultura do estupro e heterossexualidade compulsória. Isso é a violência que nos vendem como heterossexualidade.

Não é amor, é submissão.

É a primeira vez que falo publicamente sobre isso. São marcas doloridas ainda.



O PODER PATRIARCAL PERMITE AO HOMEM SER/FAZER O QUE ELE QUISER

Quanto mais poder detém, mais pode o homem.

"Homens também sofrem com o machismo."

Não, amiga, nenhum sistema de opressão vitimiza aqueles que são seus próprios agentes.

"Mas eles sofrem por não poderem fazer um monte de coisas que o machismo os impede."

Não, amiga, homens sofrem com a pobreza, com o racismo, com a xenofobia... porque se o cara for branco e rico, ele pode fazer ABSOLUTAMENTE tudo que ele quiser, inclusive viver a vida toda como homem, destilando misoginia, se beneficiando de seus privilégios masculinos e chegar à velhice dizendo que é uma mulher, e todo o mundo vai respeitar ele por isso.

Tá aí o Laerte (cartunista), que virou porta-voz do feminismo, e o Bruce Jenner, que ganhou o título de "mulher do ano", que não me deixam mentir.


VIOLÊNCIA, SOCIALIZAÇÃO E HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA

"Eles [homens] não amam mulheres, amam a feminilidade." (I. Manente, jovem feminista classista)

Homens não amam mulheres, porque, simplesmente, não nos consideram seres humanas, não são capazes de nos amar enquanto tal. Eles amam a fantasia erótica, frágil e delicada que é o fetiche da feminilidade que existe na cabeça deles, e transferem essa fantasia prum corpo que lhes atrai fisicamente.

Homens não amam mulheres, teu namorado não te ama, teu marido não te ama, teu casinho não te ama. Duvida? Experimente romper com os fetiches de feminilização que alimentam a idealização dele sobre o que você é enquanto mulher, enquanto objeto da idealização dele, experimente tornar-se humana, mostrar-se humana pra seu companheiro, e veja se seu relacionamento permanecerá.

Homens NÃO amam mulheres.

Nas sociedades patriarcais, apenas mulheres podem realmente amar mulheres, porque nós sim, ao romper os ditames escravizantes da socialização feminina, apenas nós, nesse movimento, somos capazes de reconhecer a humanidade em outras mulheres e amá-las como seres humanas.

Ame mulheres. Seja amada por mulheres.



"Dizer que um homem é heterossexual implica somente que ele mantém relações sexuais exclusivamente com o sexo oposto, ou seja, mulheres. Tudo ou quase tudo que é próprio do amor, a maioria dos homens hétero reservam exclusivamente para outros homens. As pessoas que eles admiram; respeitam; adoram e veneram; honram; quem eles imitam, idolatram e com quem criam vínculos mais profundos; a quem estão dispostos a ensinar e com quem estão dispostos a aprender; aqueles cujo respeito, admiração, reconhecimento, honra, reverência e amor eles desejam: estes são, em sua maioria esmagadora, outros homens. Em suas relações com mulheres, o que é visto como respeito é gentileza, generosidade ou paternalismo; o que é visto como honra é a colocação da mulher em uma redoma. Das mulheres eles querem devoção, servitude e sexo. A cultura heterossexual masculina é homoafetiva; ela cultiva o amor pelos homens." (Marilyn Frye)



quinta-feira, 14 de abril de 2016

FEMINISMOS, CULPA & SOCIALIZAÇÃO

Homens não sabem o que é culpa. O grupo que sente mais profundamente, com mais materialidade, o que a culpa é, são as mulheres. Homens não vivenciam a culpa, eles sentem, no máximo, um pequeno pesar ou um desconforto, porque a culpa é uma ideia fundamentalmente ligada ao controle da sexualidade e à maternidade compulsória e suas estratégias de socialização.

A culpa é um conceito feminino, fundado no feminino, experimentado de forma plena somente no feminino.

Mulheres sentem culpa, mulheres são a própria culpa que sentem.

Sentimos culpa por ser, por não ser, por fazer, por não fazer, carregamos a culpa de existir.

Nenhuma pessoa do sexo masculino experimenta a culpa como nós, em sua dimensão mais profunda e fundamental.

Por isso é tão difícil para mulheres feministas não se sentirem culpadas por aderir a um feminismo que não se sinta obrigado a pautar nada além de questões que dizem respeito apenas a nós, mulheres, e que não queira englobar as pautas trans, enquanto transativistas não sentem o menor remorso em propagar um movimento misógino, falocentrado, excludente de pautas importantes para as mulheres e, mesmo assim, chamá-lo de feminismo.

A socialização, manas, ela não falha.



terça-feira, 8 de março de 2016

O PATRIARCADO EXISTE, ACREDITE.

O patriarcado não é uma entidade, uma abstração, um imaginário: o patriarcado é real, material, ele é um sistema, com instituições, leis, regras, códigos, comandado por HOMENS, que decidem, instituem e  legislam por sua manutenção.

Soube que hoje de manhã, no programa da Fátima Bernardes, um "especialista" explicou que meninos gostam de carrinhos porque produzem testosterona e que meninas gostam de boneca graças aos hormônios femininos.

Historicamente, mulheres têm sido educadas desde a primeira infância pra se dedicarem exclusivamente, ou prioritariamente, ao espaço doméstico, ao cuidado servil com a casa, com os filhos e marido. Enquanto homens são educados, também desde a primeira infância, pra sonharem ser o que desejam. Por isso meninas recebem brinquedos como bonecas, panelinhas, vassourinhas, etc., enquanto meninos recebem carrinhos, aviões, jogos de montagem ou de estratégia, etc. Essa é uma das maneiras mais eficazes de ensinar crianças, já desde de pequenas, a naturalizar a ideia de que mulheres são aptas aos serviços domésticos, ao cuidado e a dedicação, enquanto homens são líderes, exploradores, aventureiros por sua natureza. É esse ensinamento, que começa na infância e se perpetua por toda a nossa vida em tudo aquilo que é definido como "coisa de mulher" ou "feminino" e como "coisa de homem" ou "masculino", que vai definindo nas nossas mentes que realmente existem "coisas de meninos/homens" e "coisas de meninas/mulheres". É esse ensinamento, que começa desde a infância e se perpetua durante toda nossa vida através do esforço de naturalização de convenções inventadas sobre o que é "feminino" e "masculino", que faz com que mulheres desistam de seus sonhos por acreditar que precisam se casar e ter filhos para serem "mulheres completas", ou que acreditem fortemente que têm uma vocação natural pra maternidade, pro cuidado, pro casamento, enquanto homens ousam sonhar e lutar para ser e fazer o que quiserem. É esse ensinamento, que começa desde a infância e se perpetua durante toda nossa vida através do esforço de naturalização de convenções inventadas sobre o que é "feminino" e "masculino", que garante a perpetuação de um modelo de relações que faz com que mulheres passem a vida trabalhando gratuitamente servindo aos homens no espaço doméstico para garantir que eles tenham todas as condições materiais (conforto, alimentação, vestimentas, higiene, habitação e satisfação sexual) para desenvolverem suas potências e habilidades físicas e intelectuais e gerarem dinheiro e poder para si - os dois itens mais fundamentais pra manutenção do poder e da dominação masculina sobre nós, mulheres - enquanto mulheres se dedicam a vida toda a servi-los.

Por isso homens exploram as mulheres, suas mães, irmãs, esposas, e todo mundo acha natural.
Por isso o mercado de trabalho, as empresas e patrões precisam pagar menos às mulheres, subestimá-las, assediá-las, pra que elas se sintam cada vez mais desestimuladas de trabalhar fora.
Por isso as empresas dificultam ou impedem mulheres mães de trabalhar, pra que elas entendam, de uma vez por todas, qual é o seu lugar.
Por isso homens precisam nos coagir para que tenhamos medo de trabalhar fora, andar nas ruas, sonhar em ser livres e nos impõem o medo através de sua violência machista, dos assédios, das agressões, estupros e mortes.
Por isso é fundamental que mulheres continuem se dedicando ao cuidado, aos homens, aos filhos, ao espaço doméstico.
Por isso é fundamental nos fazer crer que meninas gostarem de bonecas e meninos gostarem de carrinho é natural.

Agora me respondam: vocês acreditam que é por acaso, que é coincidência, que é uma fatalidade que, no dia 8 de março de 2016, quando o feminismo tem tomado cada vez mais espaços na sociedade, a direção de um programa de uma grande emissora escolha um cara pra dizer em rede nacional que é natural meninas gostarem de bonecas e meninos gostarem de carrinhos?

Não, não é.

Não é coincidência, não é por acaso, não é uma fatalidade: o nome disso se chama PATRIARCADO.