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domingo, 15 de maio de 2016

SOBRE GASLAITE E MANIPULAÇÃO EMOCIONAL.

O solo linguístico, epistemológico e cognitivo em que os homens constroem suas relações conosco [mulheres] é o solo da maternidade compulsória e da culpa. Eles sabem exatamente como plantar sua dominação sobre nós nesse chão. Cada um deles sabe exatamente como se apropriar de condições e valores historicamente introjetados e naturalizados em nós, mulheres - às vezes até muito antes da chegada de algum deles em nossas vidas -, e como manipular diálogos, gestos e situações pra nos fazer patinar improdutivamente nesse solo sem conseguir fazer prevalecer as nossas razões e nos defender das investidas deles; e, então, eles nos fazem sentir culpadas e responsáveis pelas situações que eles mesmos criam, pelas merdas que eles mesmos fazem e dizem, e, ainda, por nos obrigar a admitir, fazer e falar coisas que, no fundo, sabemos, não merecemos, desejamos ou sentimos vontade de admitir, fazer ou falar. E eles fazem isso sem muito esforço: apenas nos colocando de volta no lugar da culpa e da negligência a nossas próprias razões e sentimentos, quando nós estamos lutando fortemente pra sair desse lugar, quando nós estamos lutando fortemente contra esse chamado ancestral ao qual a história das mulheres e de suas violentas e incapacitantes relações com os homens nos impele a obedecer.

Homens são violentos e dominadores, mesmo quando parecem sensíveis e empáticos a nós. Assim eles nos diminuem, nos reduzem, nos subjugam, nos torturam e adoecem (física e psicologicamente), nos enlouquecem e incapacitam, para, então, legitimar suas próprias ideias, discursos e teorias de que somos naturalmente menos capazes, mais frágeis e emotivas que eles e, em seguida, nos classificar como loucas, exageradas e histéricas a cada vez que tentarmos resistir frente as investidas deles pra nos manipular, agredir e reduzir pra nos fazer caber nesses estereótipos que eles mesmo forjam e nomeiam a partir da condição que eles nos impõem através de suas relações violentas.

Observem, percebam, racionalizem e aprendam a se defender. E, sobretudo: falem!, verbalizem e narrem o que está acontecendo, o que vocês estão percebendo sobre o que eles estão fazendo, desvelem e explicitem as estratégias deles, na cara deles, e reafirmem que não vão sucumbir a elas, justamente porque as conhecem e sabem como funcionam. Não se calem! Confiem nos seus próprios sentimentos e na sua própria capacidade de arrazoar. Aprendam a não duvidar de si mesmas e de seus próprios sentimentos e razões. Sejam firmes!

O gaslaite (gaslighting, no original em inglês) é uma ferramente poderosa que o patriarcado confere aos homens pra adoecer e enlouquecer mulheres.

Sejam fortes, não duvidem de si mesmas!


HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA

A heterossexualidade compulsória adoece de tal forma as mulheres que, numa cultura em que homens nos exterminam massivamente há milênios, nós ainda nos relacionamos afetivamente com eles e não cogitamos sequer amarmos umas as outras. Nos dedicamos em afeto a nossos algozes, a nossos dominadores, a nossos exploradores, a nossos assassinos e temos horror, desprezo, ou damos pouca ou nenhuma atenção ao amor por nossas semelhantes.

Doido, não?


SOBRE ANSIEDADE, DEPRESSÃO E CIÊNCIA E MEDICINA CAPITALISTAS E PATRIARCAIS

Xô contar uma coisa pra vocês. Eu não sou uma louca irresponsável, tapada e idiota que se "recusa a ser ajudada" porque se nega a tomar as drogas alienantes e viciantes que a indústria farmacêutica impõe às pessoas como curas milagrosas e individuais pra sofrimentos causados por doenças sociais e torturas coletivas. Eu sou uma mulher adulta, inteligente e capaz, privilegiada - reconheço - com acesso à informação e ao conhecimento. Existem pesquisas, muitas pesquisas, de gente séria, profissional, dedicada, que questiona e critica radicalmente a forma como a medicina vem conduzindo os estudos sobre as causas e o tratamento de depressão, ansiedade e outros transtornos, e eu estou estudando, pesquisando, lendo, buscando essas pessoas e o que elas tem pra dizer, porque eu não acho que pessoas que se dedicam seriamente, em estudos, em pesquisas, em tempo e esforços pra questionar um cânone - e que são apagadas, negligenciadas e boicotadas por isso - o façam por brincadeira. Eu podia escolher fingir ignorar tudo isso e me deixar drogar por substâncias viciantes e que causam dependência e que de nada - NADA - diferem de todas as outras drogas que não são vendidas nas farmácias, a não ser por questões unicamente de legislação e controle social - no pior sentido que a expressão carrega. Eu podia fingir que acredito que tratar transtorno de depressão e ansiedade com Rivotril e Prozac, ou outra droga qualquer legal e lucrativa pra industria farmacêutica, é muito diferente do que tratar com cocaína e álcool, mas isso seria crer que existe sim alguma diferença fundamental entre essas drogas que não apenas a legislação sobre elas, e eu não acredito nisso. Eu podia fingir que não sei tudo isso e correr pra solução que toda a sociedade apresenta pra mim como uma forma rápida e mágica de alentar minhas dores e angústias e me entupir de drogas, tal qual um dependente de cocaína, mas me achando muito mais inteligente e perspicaz que ele. Eu podia fingir que não sei de tudo isso e sucumbir à oferta de alívio imediato que a indústria das drogas me oferecem quase como um entretenimento. Mas eu não vou. Eu não vou porque eu acredito em mim, na minha força, na minha inteligência e na minha capacidade. E, sobretudo, porque eu não acredito em soluções fáceis pra tratar um problema que me maltrata e que se cria e perdura há quase 30 anos: a violência patriarcal a que sou diariamente submetida.

Compreender como funciona e não sucumbir a uma das empresas mais ricas e poderosas do capitalismo, que se mantém milionária e no poder vendendo seu produto, e que vende seu produto deixando as pessoas doentes e as doenças crônicas em vez de realmente curá-las, também é político, também é luta, também é resistência, também é tratamento, também é importante e necessário.

A indústria farmacêutica está entre as mais ricas e poderosas do mundo, e isso não é à toa, e isso não é pouco, e isso não pode ser ignorado. Fomentam uma ética perversa e violenta - em benefício próprio e em benefício do sistema que a enriquece, o capitalismo -, e que tem norteado a própria ética médica, científica e de toda produção de conhecimento de academias e centros de pesquisas médicas e que não visa outra coisa senão manter as pessoas doentes e sob tratamento o maior tempo possível, para que possam vender seus produtos e continuar lucrando. Até quando vocês vão ignorar isso? Até quando vocês vão achar que é mais confortável e menos doloroso o autoengano?

Rompam com essa merda. Ou admitam que confiam e acreditam na indústria que vocês mesmos afirmam saber que adoece e mata gente porque lucra com isso.

O conhecimento é mais eficaz que qualquer droga. Resistir, criar e fomentar alternativas ao capitalismo e ao patriarcado - e à ciência e à medicina produzidas a partir deles - também é uma forma de cura. Não subestimem as mulheres que o fazem.


quarta-feira, 23 de março de 2016

O QUE ME FOI ROUBADO



Eu tenho um povo. Eu faço parte de um povo sob cuja escravidão, expropriação e exploração foram construídas as bases e fundamentos do que se chama, hoje, civilização. Eu faço parte de um povo que foi segregado, escravizado, explorado, de quem foi tomada violentamente a principal forma de produção de subsistência, o seu corpo, seu corpo físico e material, que foi decretado, primeiro, como propriedade de seus dominadores, em seguida, do Estado, e a quem não têm sido permitido construir ou guardar memória, saberes, identidade - justamente pra que se apague, também, as evidências dessa expropriação; um povo que foi segregado em sua constituição e a quem não é e não será jamais permitido que enxerguem a si mesmas como povo; um povo que guarda e partilha particularidades, que partilha uma cultura milenar que lhes têm sido negada, sequestrada, apagada, mas que insiste em resistir, uma cultura com base material em sua vivência única como o povo que é, uma cultura que transpassa a ideia moderna de povo enquanto nação e que nos constitui como povo pela partilha insistente dessa cultura que tem base naquilo que nos une enquanto povo: o nosso Ser no mundo a partir de nossa experiência mais fundamental, a primeira e mais fundamental forma de estar e compreender o mundo, dar sentido a ele e forjar cultura a partir disso: a experiência corpórea/corporal de ser fêmea no mundo, partilhada por nós em qualquer época, em qualquer lugar - aquilo que há de mais original e fundante na produção de sentido sobre o mundo e sobre nós, e que nos tem sido negado fazer, para que, justamente, vejamos em nós a diferença em vez da semelhança, e para que possam seguir nos sequestrando o direito de Ser.


Eu faço parte de um povo, segregado, separado, expropriado, explorado, aniquilado, assassinado, a quem por milênios têm sido negada a possibilidade de nos enxergarmos como semelhantes, não só fisicamente, mas naquilo que nos forja: a nossa materialidade e toda violência a que temos sido submetidas a partir dela.

Eu tenho uma origem, um fundamento, um lugar, uma pertença. Eu sou uma MULHER, filha de uma MULHER, neta de uma MULHER. Eu tenho o sexo feminino no meu sangue, no meu corpo, na minha constituição, na minha origem, na forma como eu vejo o mundo e produzo sentido pra ele.

Eu sou uma MULHER, a origem e o final de qualquer humanidade, em todas as épocas e em todos os lugares.

E eu pertenço ao povo das nascidas com vagina. Emoticon heart



"Sexismo é a fundação onde toda tirania é construída. Toda forma social de hierarquia e abuso é moldada tendo como ponto de partida a dominação macho-fêmea." (Andrea Dworkin)






Não mexam com meu povo, homens.

terça-feira, 8 de março de 2016

HOJE É 08/03, DIA INTERNACIONAL DE LUTA PELA EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES!

A cada amiga, a cada colega, a cada companheira de militância, a cada mulher que luta, a cada mulher cujo esforço para se manter viva já é uma luta, a cada menina, a cada bebê menina que nasce, a cada uma de vocês, vítimas de abuso sexual infantil, de agressões, de violência doméstica, de assédio nas ruas e transportes públicos, de intimidações e violência psicológica masculina, de estupro, de mutilação, de assédio sexual no trabalho, a cada uma de vocês, que a despeito de toda violência sofrida, as vezes diariamente, insistem em resistir, insistem em viver, em resistir, em lutar, a cada uma de vocês, minha IMENSA GRATIDÃO. É por vocês que estou de pé! A minha força é a força de vocês!


Àquelas que não conseguiram resistir, que suicidaram-se, que adoeceram, que foram assassinadas, mortas, incapacitadas de lutar, por elas, por cada uma delas, a NOSSA VOZ E A NOSSA LUTA!

NÃO NOS CALAREMOS!

MULHERES, LUTEM, RESISTAM!

Que nossa memória e a memória de nossa luta e nossa resistência contra a violência misógina e o patriarcado permaneçam vivas! Que vivas permaneçam nossa força e resistência neste dia e em todos os outros, até a nossa completa emancipação!

VIVA O DIA INTERNACIONAL DE LUTA PELA EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES!

EU AMO VOCÊS! 


SOBRE 8 DE MARÇO, ONU E EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES.

Gente, antes do incêndio na fábrica de tecidos nos EUA, ao qual é atribuído a origem do marco do dia internacional das mulheres pela ONU, as mulheres russas já haviam deflagrado greves, se organizado, lutado e morrido em massa por reivindicar direitos para as mulheres; elas também reivindicavam o estabelecimento de uma data, um marco, em memória da luta e resistência das mulheres, ein. Historicamente, a luta das mulheres esteve por muito tempo atrelada à luta por uma sociedade socialista, só que a ONU, pra desatrelar a memória da luta das mulheres - uma luta que já existia para as MULHERES TRABALHADORAS socialistas antes mesmo de se falar em feminismo - pra desatrelar a memória da luta das mulheres da memória da própria luta SOCIALISTA das trabalhadoras russas contra a EXPLORAÇÃO DE CLASSE, ignorou toda história de luta das mulheres russas e promoveu o apagamento dessa memória estabelecendo o episódio da fábrica dos EUA como marco da data celebrativa.

Há séculos, também, as MULHERES NEGRAS já lutavam por sua emancipação, e pela emancipação de seu povo. Mas dessa luta, por motivos óbvios, temos ainda menos registros e menos memórias. Mas também não podemos ignorar e esquecer que a luta das mulheres negras também antecede o feminismo e o marco que a ONU resolveu estabelecer como celebrativo da luta das mulheres. Não podemos, portanto, ignorar ou esquecer que a luta pela emancipação das mulheres é anterior ao fenômeno branco e burguês do feminismo, e que passa, também, fundamentalmente pela luta contra o SISTEMA RACISTA.

Também há séculos, as MULHERES LÉSBICAS lutam e resistem. Silenciosamente, também tendo seus registros e memórias aniquiladas, suas narrativas apagadas, sua luta e resistência - a mais fundamental e forte luta contra a sociedade patriarcal: O AFETO EXCLUSIVAMENTE VOLTADO PARA MULHERES -, as lésbicas tiveram, antes de qualquer movimento feminista, sua resistência e luta assassinadas, torturadas e encarceradas em manicômios.

Fiquem de olho, ein, porque não existe emancipação feminina no capitalismo. Não existe emancipação feminina sem ruptura com a sociedade de classes. Não existe emancipação feminina no racismo. Não existe emancipação feminina numa sociedade racista. E, ainda, não existe emancipação feminina numa sociedade em que mulheres são violentamente impedidas de desenvolver o afeto e o amor dedicado exclusivamente a outras mulheres. E é isso que a ONU quer nos fazer esquecer. Não permitam.

Mulheres negras, mulheres trabalhadoras, mulheres lésbicas, seu legado e seu protagonismo não podem ser apagados JAMAIS.