Mostrando postagens com marcador Mulheres. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Mulheres. Mostrar todas as postagens

terça-feira, 21 de junho de 2016

EU, ANA PAULA, SAFO E PANDORA.



Hoje eu acordei com uma angústia danada, daquelas que permanecem o dia inteiro doendo e apertando o peito, como uma crise de ansiedade anunciada, que a gente vai contendo pra não explodir dentro da gente - que a gente vai segurando pra poder viver a vida, fazer as coisas, seguir em frente.

Acordei com lembranças (é possível que eu tenha sonhado e não lembre) de um episódio da minha adolescência, quando, lá por volta dos meus 16 anos, saí pruma baladinha com umas amigas da mesma idade. Morávamos todas no mesmo bairro, no subúrbio do Rio, num daqueles bairros pequenos, em todo mundo conhece todo mundo. Lá encontramos uns rapazes, amigos da gente, e que também estavam com seus amigos. Um dos amigos dos amigos se interessou por mim, eu não senti nenhum interesse por ele, mas diante do apelo das amigas (ele é bonito, ele faz faculdade, ele trabalha, tem dinheiro, tem carro - e todos esses símbolos de poder que somos ensinadas a valorizar em homens) e do gesto costumeiro de invalidar minha própria vontade e me obrigar a sair com homens que se interessavam por mim, mais uma vez eu não consegui dizer não, e, constrangida, desconfortável, com um sentimento que eu ainda não sabia nomear, eu fiquei com o cara. Eu simplesmente não consegui dizer não ao homem - e esse é um sentimento que só as mulheres conhecem.

Ficamos e ele sugeriu a todos que terminássemos a noite na casa dele - os pais dele estavam viajando, a casa era grande, tinha espaço e bebidas. Mais uma vez, fui convencida, eu não queria ir (no fundo, eu sabia o que isso significava), mas fui convencida, por ele e por todos, inclusive pelas minhas amigas, que estavam empolgadíssimas ficando com outros rapazes do grupo. Mais uma vez, não consegui dizer não, dizer "Não, eu não quero".

Ele morava numa casa enorme, num lugar bem ermo no bairro, ao fim de uma rua sem saída e deserta, uma casa isolada em cima de uma pedra. Meu estômago revirava, sentia um aperto no peito (como esse, com que acordei agora), uma sensação ruim, que eu mesmo não entendia e não era capaz de dar significado - afinal, eu devia estar feliz e empolgada, estava saindo com um dos caras mais bonitos, mais bem sucedidos e mais cobiçados pelas meninas do bairro, e ele me quis (não é assim que a gente, a vida toda, é ensinada?) Mas eu não estava, me sentia estranha, constrangida e desanimada.

Na casa dele, todos bebemos e conversamos, ouvimos música e, aos poucos, as outras pessoas começavam a ir embora. Minhas amigas todas tinham conseguido um par, e também foram saindo. Eu tentei ir embora com uma delas, mas, mais uma vez, não consegui obedecer minha vontade: diante da insistência da amiga (Como eu poderia ser louca de não querer ficar com aquele cara?) e do próprio cara ("Calma, fica comigo, eu não vou fazer nada que você não queira."- repetidas vezes), eu fiquei, mesmo constrangida, sem vontade, com o estômago retorcendo e com aquela angústia no peito. Eu tentava não pensar, não entender o que era aquilo que acontecia comigo: Por que eu não ia querer ficar com um cara bonito, bacana, educado, bem sucedido e com dinheiro? Por que eu não queria? Por quê? Todas as minas da minha idade queriam, por que eu não ia querer? Mas eu simplesmente atropelava meus sentimentos, sufocava eles, esses mesmos que eu não conseguia nomear, e não conseguia dizer não, e sempre cedia às investidas dos caras.





Todo mundo foi embora e eu fiquei. Deitamos numa rede na varanda, conversando e bebendo, e o cara foi ficando mais à vontade, é claro. Nessa hora, além do constrangimento e do desconforto, do estômago revirado, da angústia, eu também senti MEDO. Eu estava sozinha na casa de um homem que mal conhecia e ele já estava em cima de mim, tentando tirar minha roupa.

Com muito jeito, de maneira delicada e educada, pra não aborrecê-lo e nem desagradá-lo (como somos bem ensinadas a agir com homens, sobretudo quando se diz respeito a contrariar a vontade deles), eu consegui dizer a ele que queria ir pra casa. É claro que ele não me acatou, dizia pra eu ficar calma, insistia que não ia fazer nada que eu não quisesse, e que a gente ia ficar ali só conversando e namorando um pouco, me dizia como eu era linda, maravilhosa e como eu tinha o pode de excitá-lo e como ele estava feliz em estar ali comigo - estratégia comum aos homens, que sabem muito bem manipular os signos que o patriarcado desenha para nós, mulheres, pra nos coagir a ceder a vontade deles como se essa fosse, na verdade, a nossa própria vontade, ou como se nós tivéssemos sobre eles algum poder que deve ser celebrado e valorizado.

Por fim, constrangida, com angústia e medo, depois de insistir muitas vezes, mas ainda sem perder a doçura e a gentileza, por conta do temor de desagradá-lo, eu consegui convencê-lo a me levar em casa. Muito a contragosto, já completamente mudado, de cara fechada e resmungando, ele me deixou na porta de casa.

Dessa vez eu havia escapado. Senti um alívio imenso. Mas a angústia e o constrangimento permaneceram no peito, do mesmo jeito que eu tô sentindo agora, como uma grande explosão querendo fugir de uma caixa fechada, que eu trancava com força e não permitia que saísse, que eu ainda não permito que exploda.

Dessa vez eu havia escapado.

Mas me lembrei, também, das outras várias vezes em que vivi situações como essa, das dezenas de outras vezes que eu não consegui, que eu, simplesmente, por uma força que eu não sabia explicar, eu não consegui dizer não. Que lá, na hora "H", numa outra casa, num motel, ou dentro de um carro, com um outro cara, em outras várias ocasiões, eu não consegui, eu simplesmente não consegui dizer não. E apertei com força a tampa da caixa do meu peito, tranquei bem trancada a angústia, o desconforto, o constrangimento e o medo, e cedi, sem nenhuma vontade, ao sexo com os caras.

Hoje eu sei que fui estuprada. Que diversas vezes na minha vida fui estuprada. E hoje eu sei nomear esse sentimento, que eu trancava dentro, bem forte, e sobre o qual eu não queria pensar, porque eu queria ser como as outras, eu só queria ser aceita e feliz como as outras meninas, queria ser legal e normal, queria ser amada como elas. Ou como eu achava que elas eram.

Hoje eu sei nomear esse sentimento, mas, por muito tempo, não me permitiram saber do que ele se tratava. Eu sei nomear esse sentimento e a sua causa: chama-se HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA.

Eu abri a caixa. Deixei explodir meus medos. Estou juntando cada sentimento e aprendendo o nome deles. E quando eu abri meu peito, e nomei meus sentimentos, eu aprendi a nomear também quem eu sou. <3


terça-feira, 31 de maio de 2016

SOBRE FEMINISMO, FÊMEAS HUMANAS, ETIMOLOGIA E A SOCIOGÊNESE DE NOSSA OPRESSÃO

E CONTRA A COLONIZAÇÃO MASCULINA DE ESPAÇOS E NARRATIVAS FEMINISTAS.

Pessoas do sexo masculino, socializadas a partir do falo, do falocentrismo e da misoginia, sempre definiram o que é ser mulher, o que é a nossa condição. A partir das definições falocentradas da mulher é que surgiu o gênero, o gênero feminino, os estereótipos de gênero. Gênero nada mais é do que: a definição masculina do que é mulher a partir de necessidades e sentimentos centrados nesse sujeito falocentrado. Às mulheres nunca foi dada a possibilidade de definir, nós mesmas, a partir de nossas experiências, o que é a condição feminina. NUNCA. É fundamental pra manutenção do patriarcado nos negar isso e garantir que pessoas do sexo masculino nomeiem, definam e narrem o que é ser mulher, o que é a condição feminina. A diferença é que, antes, eles faziam isso e era patriarcado e hoje fazem isso e chamam de feminismo/transfeminismo.
Agora, não satisfeitos em invadir e nos silenciar dentro do único espaço em que conseguimos conquistar o direito de dizer, narrar e nomear a nós mesmas a partir de experiências que a vivemos materialmente - e não sob a forma de um sentimento subjetivo a partir de um fetiche patriarcal do que seria ser mulher - os homens estão disputando conosco o direito de definir o que é ou não o feminismo: se se ocupar somente de pautas, debates, demandas, opressões e violências que dizem respeito apenas àquelas que, historicamente vem sendo dominadas através de seu sexo, da materialidade de seus corpos, da exploração de suas capacidades reprodutivas, e não contemplar o sentimento de homens, não é feminismo, é cisativismo.

Homens, além de acreditarem que seus sentimentos devem ter prioridade acima da realidade histórica e material que violenta milenarmente o sexo feminino e forja o gênero feminino, querem nos proibir de dizer o que é ser mulher no patriarcado e nos proibir de dizer que colocar como prioridade a segurança, a vida e a integridade de pessoas nascidas sob a materialidade do sexo feminino não é feminismo, é cisativismo.

Há milênios homens vêm nos roubando o direito de dizer nós mesmas o que somos, o que é ser mulher. O único espaço que tínhamos pra isso era o feminismo, agora o poder discursivo e a força colonizadora poderosa da narrativa falocentrada e misógina no patriarcado tem tentado nos impedir também de afirmar que o feminismo é um movimento que luta exclusivamente por causas e pautas relativas às violências que sofremos pela imposição de ser mulher no patriarcado e não por homens, independente de como eles se sentem em suas subjetividades.

A palavra "feminismo" deriva, etimológica, histórica, social e materialmente, do substantivo "fêmea" - que corresponde, numa vasta classificação da diversidade natural, àquelas seres que, na natureza, tem uma característica específica: o sexo feminino. Feminismo, portanto, diz respeito a um movimento de um grupo específico de pessoas que sentindo materialmente em sua vivência cotidiana a hierarquização que os homens promovem das diferenças sexuais naturais pra definir, dominar e explorar o sexo feminino, se voltaram contra esse sistema, de exploração da fêmea humana pelo sexo masculino - daí o movimento FEMINISTA. A exploração das mulheres é sexual. É através da hierarquização das diferenças sexuais que os homens criam e naturalizam a definição de "gênero feminino" e legitimam a Divisão Sexual do Trabalho. A Divisão Sexual do Trabalho pela ideia de gênero feminino é a forma organizada e sistemática pela qual os homens têm mantido a exploração e opressão das mulheres, e ela se dá pelo sexo e não pela identidade de gênero. A exploração das mulheres tem origem no sexo e não no gênero. O gênero é uma estratégia masculina violenta de hierarquização das relações entre machos e fêmeas humanas para a dominação e exploração dessas, e não o fundamento da nossa dominação ou, muito menos, um fenômeno natural com que se possa se identificar ou não.

Feminismo é sobre fêmeas humanas, sobre a exploração de nossos corpos, de nosso sexo, de nossa capacidade de gerar e reproduzir e de tudo o mais que, historicamente, têm se desdobrado a partir dessa raiz, desse fundamento opressor. Isso é o feminismo. O nome do movimento que se ocupa com sentimentos, demandas e subjetividades de pessoas do sexo masculino acima da materialidade dos corpos das mulheres se chama PATRIARCADO.

Portanto, feminismo que se ocupa de pautas, necessidades e sentimentos de pessoas nascidas no sexo masculino NÃO EXISTE. Transfeminismo NÃO EXISTE. Isso é COLONIZAÇÃO do movimento feminista por sujeitos falocentrados, aqueles que sempre foram os sujeitos do discurso, os sujeitos que se instituíram e se autolegitimam uns aos outros na autoridade de definir o mundo e a nossa condição.

Feminismo que se ocupa de sentimentos, vontades e demandas de pessoas pertencentes à casta dominante, à casta que historicamente tem definido, instituído e limitado o sexo feminino a partir das definições de "gênero feminino" não é feminismo, é backlash, é reação patriarcal, independente de como as pessoas do sexo masculino se sentem ou com o que se identificam.

Na mesma linha de pensamento, podemos afirmar que transmisoginia também não existe, transmisoginia também é backlash, é reação patriarcal. A expressão "misoginia" não significa exatamente - ou simplesmente - "ódio às mulheres", mas, antes, e fundamentalmente, a palavra misoginia nomeia o ódio ao SEXO FEMININO e a tudo que diz respeito a ele. E, apenas a partir desse sentido fundamental, é possível compreender e nomear o que é ser mulher no patriarcado, e nenhum outro grupo de pessoas está mais apto ou autorizado a dizer o que é ser mulher do que aquelas que são o sujeito da misoginia: o sexo feminino. "Misoginia" deriva da palavra grega gynè, significa "bainha"; tanto a palavra gynè quanto a palavra vagina - que significa "bainha de guardar espada" -, são definições falocentradas do sexo, da anatomia, do corpo, da condição feminina - e isso é uma característica comum a todas as sociedades patriarcais: definir mulher como "gênero feminino" a partir da redução de nossas especificidades ao desejo, ao corpo, ao sexo masculino. Portanto, podemos dizer que, com toda diversidade regional, cultural e social que perpassa a experiência feminina nas diversas culturas patriarcais, a definição da condição feminina a partir da redução de nossas anatomias, fisiologias e existências à centralidade do falo e do sujeito falocentrado é a característica comum de qualquer pessoa do sexo feminino em qualquer sociedade patriarcal, é o que nos faz mulher. Misoginia é a palavra pra designar, então, o ódio àquilo que é odiado pelo patriarcado e que nos faz mulher: O SEXO FEMININO e tudo que diz respeito a ele. Misoginia, ao mesmo tempo que nomeia o ódio específico ao sexo feminino, traz na sua própria designação todo ódio e desprezo do sexo masculino pelo feminino, definido pelo primeiro a partir de si mesmo como algo que existe em função do pênis, a bainha de guardar a espada - raiz também de toda lesbofobia e potência de aniquilação de lésbicas e suas narrativas. Assim, não pode ser nenhum absurdo dizer que misoginia contra pessoas do sexo masculino também é algo que NÃO EXISTE, que transmisoginia NÃO EXISTE, que insistir nisso também é backlash, reação patriarcal.

Portanto, não é difícil chegar a conclusão de que cisativismo também NÃO EXISTE. O nome do movimento que tem como prioridade exclusiva pessoas nascidas no sexo feminino e suas pautas, demandas e opressões fundamentadas na exploração sexual promovida pelo patriarcado contra pessoas nascidas no sexo feminino e definidas por ele como mulheres é FEMINISMO.

Se você faz parte de um movimento que ignora, silencia e promove o apagamento de tudo isso, da raiz de nossas opressões, do fundamento do qual se desdobram todas as outras práticas de opressão contra nós, saiba: esse movimento não é feminista, na verdade, ele é antifeminista, antimulher.

Eu sou FEMINISTA. Feminista Radical. Minha opressão não tá na identidade de gênero, minha opressão é SEXUAL.

Feministas radiciais existem e resistem. O transativismo não vai nos silenciar. Nós não temos medo da colonização masculina sobre nossos corpos, nosso sexo, nossas práticas, nossos discursos e narrativas, nós a estamos enfrentando há milênios.

domingo, 15 de maio de 2016

HETEROSSEXUALIDADE COMPULSÓRIA

A heterossexualidade compulsória adoece de tal forma as mulheres que, numa cultura em que homens nos exterminam massivamente há milênios, nós ainda nos relacionamos afetivamente com eles e não cogitamos sequer amarmos umas as outras. Nos dedicamos em afeto a nossos algozes, a nossos dominadores, a nossos exploradores, a nossos assassinos e temos horror, desprezo, ou damos pouca ou nenhuma atenção ao amor por nossas semelhantes.

Doido, não?


SOBRE ANSIEDADE, DEPRESSÃO E CIÊNCIA E MEDICINA CAPITALISTAS E PATRIARCAIS

Xô contar uma coisa pra vocês. Eu não sou uma louca irresponsável, tapada e idiota que se "recusa a ser ajudada" porque se nega a tomar as drogas alienantes e viciantes que a indústria farmacêutica impõe às pessoas como curas milagrosas e individuais pra sofrimentos causados por doenças sociais e torturas coletivas. Eu sou uma mulher adulta, inteligente e capaz, privilegiada - reconheço - com acesso à informação e ao conhecimento. Existem pesquisas, muitas pesquisas, de gente séria, profissional, dedicada, que questiona e critica radicalmente a forma como a medicina vem conduzindo os estudos sobre as causas e o tratamento de depressão, ansiedade e outros transtornos, e eu estou estudando, pesquisando, lendo, buscando essas pessoas e o que elas tem pra dizer, porque eu não acho que pessoas que se dedicam seriamente, em estudos, em pesquisas, em tempo e esforços pra questionar um cânone - e que são apagadas, negligenciadas e boicotadas por isso - o façam por brincadeira. Eu podia escolher fingir ignorar tudo isso e me deixar drogar por substâncias viciantes e que causam dependência e que de nada - NADA - diferem de todas as outras drogas que não são vendidas nas farmácias, a não ser por questões unicamente de legislação e controle social - no pior sentido que a expressão carrega. Eu podia fingir que acredito que tratar transtorno de depressão e ansiedade com Rivotril e Prozac, ou outra droga qualquer legal e lucrativa pra industria farmacêutica, é muito diferente do que tratar com cocaína e álcool, mas isso seria crer que existe sim alguma diferença fundamental entre essas drogas que não apenas a legislação sobre elas, e eu não acredito nisso. Eu podia fingir que não sei tudo isso e correr pra solução que toda a sociedade apresenta pra mim como uma forma rápida e mágica de alentar minhas dores e angústias e me entupir de drogas, tal qual um dependente de cocaína, mas me achando muito mais inteligente e perspicaz que ele. Eu podia fingir que não sei de tudo isso e sucumbir à oferta de alívio imediato que a indústria das drogas me oferecem quase como um entretenimento. Mas eu não vou. Eu não vou porque eu acredito em mim, na minha força, na minha inteligência e na minha capacidade. E, sobretudo, porque eu não acredito em soluções fáceis pra tratar um problema que me maltrata e que se cria e perdura há quase 30 anos: a violência patriarcal a que sou diariamente submetida.

Compreender como funciona e não sucumbir a uma das empresas mais ricas e poderosas do capitalismo, que se mantém milionária e no poder vendendo seu produto, e que vende seu produto deixando as pessoas doentes e as doenças crônicas em vez de realmente curá-las, também é político, também é luta, também é resistência, também é tratamento, também é importante e necessário.

A indústria farmacêutica está entre as mais ricas e poderosas do mundo, e isso não é à toa, e isso não é pouco, e isso não pode ser ignorado. Fomentam uma ética perversa e violenta - em benefício próprio e em benefício do sistema que a enriquece, o capitalismo -, e que tem norteado a própria ética médica, científica e de toda produção de conhecimento de academias e centros de pesquisas médicas e que não visa outra coisa senão manter as pessoas doentes e sob tratamento o maior tempo possível, para que possam vender seus produtos e continuar lucrando. Até quando vocês vão ignorar isso? Até quando vocês vão achar que é mais confortável e menos doloroso o autoengano?

Rompam com essa merda. Ou admitam que confiam e acreditam na indústria que vocês mesmos afirmam saber que adoece e mata gente porque lucra com isso.

O conhecimento é mais eficaz que qualquer droga. Resistir, criar e fomentar alternativas ao capitalismo e ao patriarcado - e à ciência e à medicina produzidas a partir deles - também é uma forma de cura. Não subestimem as mulheres que o fazem.


quarta-feira, 23 de março de 2016

O QUE ME FOI ROUBADO



Eu tenho um povo. Eu faço parte de um povo sob cuja escravidão, expropriação e exploração foram construídas as bases e fundamentos do que se chama, hoje, civilização. Eu faço parte de um povo que foi segregado, escravizado, explorado, de quem foi tomada violentamente a principal forma de produção de subsistência, o seu corpo, seu corpo físico e material, que foi decretado, primeiro, como propriedade de seus dominadores, em seguida, do Estado, e a quem não têm sido permitido construir ou guardar memória, saberes, identidade - justamente pra que se apague, também, as evidências dessa expropriação; um povo que foi segregado em sua constituição e a quem não é e não será jamais permitido que enxerguem a si mesmas como povo; um povo que guarda e partilha particularidades, que partilha uma cultura milenar que lhes têm sido negada, sequestrada, apagada, mas que insiste em resistir, uma cultura com base material em sua vivência única como o povo que é, uma cultura que transpassa a ideia moderna de povo enquanto nação e que nos constitui como povo pela partilha insistente dessa cultura que tem base naquilo que nos une enquanto povo: o nosso Ser no mundo a partir de nossa experiência mais fundamental, a primeira e mais fundamental forma de estar e compreender o mundo, dar sentido a ele e forjar cultura a partir disso: a experiência corpórea/corporal de ser fêmea no mundo, partilhada por nós em qualquer época, em qualquer lugar - aquilo que há de mais original e fundante na produção de sentido sobre o mundo e sobre nós, e que nos tem sido negado fazer, para que, justamente, vejamos em nós a diferença em vez da semelhança, e para que possam seguir nos sequestrando o direito de Ser.


Eu faço parte de um povo, segregado, separado, expropriado, explorado, aniquilado, assassinado, a quem por milênios têm sido negada a possibilidade de nos enxergarmos como semelhantes, não só fisicamente, mas naquilo que nos forja: a nossa materialidade e toda violência a que temos sido submetidas a partir dela.

Eu tenho uma origem, um fundamento, um lugar, uma pertença. Eu sou uma MULHER, filha de uma MULHER, neta de uma MULHER. Eu tenho o sexo feminino no meu sangue, no meu corpo, na minha constituição, na minha origem, na forma como eu vejo o mundo e produzo sentido pra ele.

Eu sou uma MULHER, a origem e o final de qualquer humanidade, em todas as épocas e em todos os lugares.

E eu pertenço ao povo das nascidas com vagina. Emoticon heart



"Sexismo é a fundação onde toda tirania é construída. Toda forma social de hierarquia e abuso é moldada tendo como ponto de partida a dominação macho-fêmea." (Andrea Dworkin)






Não mexam com meu povo, homens.

terça-feira, 8 de março de 2016

HOJE É 08/03, DIA INTERNACIONAL DE LUTA PELA EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES!

A cada amiga, a cada colega, a cada companheira de militância, a cada mulher que luta, a cada mulher cujo esforço para se manter viva já é uma luta, a cada menina, a cada bebê menina que nasce, a cada uma de vocês, vítimas de abuso sexual infantil, de agressões, de violência doméstica, de assédio nas ruas e transportes públicos, de intimidações e violência psicológica masculina, de estupro, de mutilação, de assédio sexual no trabalho, a cada uma de vocês, que a despeito de toda violência sofrida, as vezes diariamente, insistem em resistir, insistem em viver, em resistir, em lutar, a cada uma de vocês, minha IMENSA GRATIDÃO. É por vocês que estou de pé! A minha força é a força de vocês!


Àquelas que não conseguiram resistir, que suicidaram-se, que adoeceram, que foram assassinadas, mortas, incapacitadas de lutar, por elas, por cada uma delas, a NOSSA VOZ E A NOSSA LUTA!

NÃO NOS CALAREMOS!

MULHERES, LUTEM, RESISTAM!

Que nossa memória e a memória de nossa luta e nossa resistência contra a violência misógina e o patriarcado permaneçam vivas! Que vivas permaneçam nossa força e resistência neste dia e em todos os outros, até a nossa completa emancipação!

VIVA O DIA INTERNACIONAL DE LUTA PELA EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES!

EU AMO VOCÊS! 


SOBRE 8 DE MARÇO, ONU E EMANCIPAÇÃO DAS MULHERES.

Gente, antes do incêndio na fábrica de tecidos nos EUA, ao qual é atribuído a origem do marco do dia internacional das mulheres pela ONU, as mulheres russas já haviam deflagrado greves, se organizado, lutado e morrido em massa por reivindicar direitos para as mulheres; elas também reivindicavam o estabelecimento de uma data, um marco, em memória da luta e resistência das mulheres, ein. Historicamente, a luta das mulheres esteve por muito tempo atrelada à luta por uma sociedade socialista, só que a ONU, pra desatrelar a memória da luta das mulheres - uma luta que já existia para as MULHERES TRABALHADORAS socialistas antes mesmo de se falar em feminismo - pra desatrelar a memória da luta das mulheres da memória da própria luta SOCIALISTA das trabalhadoras russas contra a EXPLORAÇÃO DE CLASSE, ignorou toda história de luta das mulheres russas e promoveu o apagamento dessa memória estabelecendo o episódio da fábrica dos EUA como marco da data celebrativa.

Há séculos, também, as MULHERES NEGRAS já lutavam por sua emancipação, e pela emancipação de seu povo. Mas dessa luta, por motivos óbvios, temos ainda menos registros e menos memórias. Mas também não podemos ignorar e esquecer que a luta das mulheres negras também antecede o feminismo e o marco que a ONU resolveu estabelecer como celebrativo da luta das mulheres. Não podemos, portanto, ignorar ou esquecer que a luta pela emancipação das mulheres é anterior ao fenômeno branco e burguês do feminismo, e que passa, também, fundamentalmente pela luta contra o SISTEMA RACISTA.

Também há séculos, as MULHERES LÉSBICAS lutam e resistem. Silenciosamente, também tendo seus registros e memórias aniquiladas, suas narrativas apagadas, sua luta e resistência - a mais fundamental e forte luta contra a sociedade patriarcal: O AFETO EXCLUSIVAMENTE VOLTADO PARA MULHERES -, as lésbicas tiveram, antes de qualquer movimento feminista, sua resistência e luta assassinadas, torturadas e encarceradas em manicômios.

Fiquem de olho, ein, porque não existe emancipação feminina no capitalismo. Não existe emancipação feminina sem ruptura com a sociedade de classes. Não existe emancipação feminina no racismo. Não existe emancipação feminina numa sociedade racista. E, ainda, não existe emancipação feminina numa sociedade em que mulheres são violentamente impedidas de desenvolver o afeto e o amor dedicado exclusivamente a outras mulheres. E é isso que a ONU quer nos fazer esquecer. Não permitam.

Mulheres negras, mulheres trabalhadoras, mulheres lésbicas, seu legado e seu protagonismo não podem ser apagados JAMAIS.