Eu realmente queria compreender o que as liberais entendem como "agência" e "empoderamento" quando falam de uma atividade que tem como FUNDAMENTO a redução absoluta de pessoas à mercadoria.
Sim, porque caso vocês não tenham se dado conta ainda, a prostituição só é passível de ser instituída numa sociedade que tem como acordo social a existência de um grupo de pessoas que pode ser destituído de humanidade pra ser objetificado e mercantilizado.
Assim: o fundamento primeiro da prostituição - em qualquer condição -, aquele que torna possível sua existência enquanto fenômeno e fato social, é a objetificação plena do indivíduo, ou seja: a desumanização, a destituição do caráter humano da pessoa para sua redução à mercadoria.
A prostituição não pode ser compreendida a partir de explicações individualizantes. A prostituição só pode ser compreendida a partir da dinâmica sócio-cultural que permite e mantém sua existência e suas significações. Somente numa sociedade que institui e normatiza mulheres como objetos e cidadãos como consumidores a prostituição - que é fundamentalmente o acordo de autorização social para que um grupo desumanize outro e o torne objeto de suas vontades - a prostituição pode existir, pode fazer sentido e, mais: pode ser pensada como "escolha" da mulher prostituída. Fora desse contexto, de uma sociedade que vê como possível e natural a objetificação de mulheres e o direito do homem de consumi-las, a prostituição não poderia sequer ser pensada - a não ser como violência, barbárie desumanização e exploração, que é o que ela realmente é para as mulheres.
Que "agência" e que "empoderamento" pode existir numa atividade fundamentada nessas premissas? Que "agência" e que "empoderamento" podem existir em uma pessoa que "escolhe" ser desumanizada e objetificada pra ser comercializada para atender as demandas do outro? Onde liberais apontam a "agência" e o "empoderamento" eu só consigo ver um terrível erro de interpretação sobre o que a prostituição realmente é.
A perspectiva de que a prostituição pode ser uma atividade empoderadora e libertária é uma perspectiva PATRIARCAL de positivação e naturalização da objetificação e mercantilização das mulheres assim como daquilo que há de mais fundamental pra existência de qualquer ser humano: nossos corpos. É fácil para mulheres acreditarem que a prostituição pode se empoderadora e libertária porque é fácil para mulheres acreditarem nos discursos patriarcais que positivam e naturalizam o nosso subjugo aos homens e a as suas vontades: fomos socializadas pra isso.
O discurso patriarcal defende, supervaloriza e romanceia a prostituição e diversas outras violências contra mulheres por um simples motivo: interessa ao patriarcado nos convencer que sermos objetificadas e exploradas é bom pra nós, interessa ao patriarcado nos convencer disso porque é bom para os homens nos objetificar e explorar. Interessa ao patriarcado escamotear os fundamentos da exploração sexual feminina e florear a violência com falsas promessas de empoderamento e libertação porque interessa ao patriarcado MANTER as atividades de exploração sexual feminina.
O discurso e a prática feminista SEMPRE existirão no sentido de criticar e romper com os discursos e as práticas patriarcais - mesmo as mais veladas e naturalizadas - e NÃO DE REAFIRMÁ-LAS E ENDOSSÁ-LAS.
Logo, defender prostituição como libertação e empoderamento feminino é um discurso PATRIARCAL e não feminista.
Rompa com as perspectivas patriarcais sobre a prostituição e as violências contra nós, rompa com as narrativas e explicações, impregnadas de sentido patriarcal, que romantizam, idealizam, fetichizam e manipulam a realidade sobre esses temas, conheça as perspectivas, as narrativas e os sentidos que as mulheres e as feministas produzem sobre a prostituição e outras violências naturalizadas pelo patriarcado contra nós. Leia, pesquise, investigue, ouça as mulheres. E privilegiem nossas narrativas e produções de sentido sobre a realidade em vez de valorizar as explicações fundamentadas nas perspectivas de homens.
"Dizer que as mulheres têm o direito de se vender, é disfarçar o fato de que homens têm o direito de comprá-las" - Maud Olivier
Um blog para MULHERES: aquelas que pertencem à classe sexual de pessoas historicamente definidas, limitadas, classificadas e designadas como o gênero feminino pelo patriarcado para que possam ter sua subjetividade, seus corpos, sexo, sexualidade e capacidades reprodutivas dominadas, controladas e exploradas por ele para gerar riqueza para os homens.
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terça-feira, 14 de junho de 2016
PROSTITUIÇÃO É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA
Em maio de 2016, um movimento liberal de mulheres denominado Marcha das Vadias Rio de Janeiro, liderado por um travesti cafetão e político profissional, que há alguns anos já vem defendendo a regulamentação da exploração sexual de mulheres por cafetões através da PL Gabriela Leite, começou também a encabeçar um movimento criminoso de apologia, defesa e incentivo ao turismo sexual. O movimento, liderado por esse travesti cafetão, aproveitou-se da ocasião da realização das Olimpíadas no Rio de Janeiro e de todo o debate que vem sendo gerado pra COIBIR o turismo sexual durante o megaevento esportivo pra liderar uma campanha de liberação do turismo sexual no Brasil. Com os argumentos de que alguma mulheres "escolhem" serem prostituídas e que o turismo sexual as beneficiaria, ignorando a realidade de que o turismo sexual é uma atividade misógina, predatória e violenta que trafica, explora, mutila e mata MILHARES de crianças e mulheres no mundo inteiro, e reduzindo a questão a um "tabu" moral a ser superado, o travesti cafetão lidera mulheres do Rio a apologizarem e incentivarem o turismo sexual através desse movimento criminoso em benefício próprio.
Esse texto foi escrito por ocasião de uma série de levantes e contestações de feministas abolicionistas contra esse movimento bizarro e criminoso.
PROSTITUIÇÃO NÃO É ESCOLHA INDIVIDUAL, É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA
Nenhuma mulher "escolhe" ser prostituída, NENHUMA. Em nenhuma circunstância.
Simplesmente porque a prostituição não pode ser compreendida em termos de escolhas individuais, isso é uma falácia neoliberal. Prostituição é um SISTEMA de escravidão feminina.
Não existe mulher que "se prostitui", mulher não prostitui a si mesma, ela só está prostituída porque os homens são os agentes da prostituição, é deles a demanda por prostitutas, são eles os sujeitos da prostituição, logo, mulheres não "se prostituem" ["se" é partícula reflexiva, que indica que alguém faz algo pra si mesmo e não pra outrem], mulheres SÃO PROSTITUÍDAS POR HOMENS.
Não há 2 sujeitos da prostituição, o sujeito da prostituição é o HOMEM - em qualquer circunstância - a mulher é o OBJETO da prostituição.
Ser objetificada significa ser REIFICADA.
Reificação é fundamentalmente um processo de DESUMANIZAÇÃO.
Nenhuma mulher "escolhe" ser reificada, ela apenas não teve chances ainda de compreender que está sendo porque o patriarcado NATURALIZA o processo de reificação das mulheres e as proíbe de narrarem pela perspectiva das mulheres as nossas versões das histórias de subjugo e dominação masculina, assim como nos impede que nos reconheçamos nessas histórias e umas nas outras. O patriarcado nos impõe a sua própria versão do que a prostituição é para as mulheres: "liberdade sexual", "escolha", "empoderamento". Mas basta ouvirmos o que estão dizendo a imensa maioria das mulheres prostituídas por homens para saber que essa versão é FALSA, que essa é uma versão PATRIARCAL que não condiz com a realidade e nem com os relatos da GRANDE MAIORIA das mulheres prostituídas.
Vamos parar de defender prostituição como se isso fosse feminismo porque NÃO É.
PROSTITUIÇÃO É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA. SISTEMAS NÃO SÃO FENÔMENOS INDIVIDUAIS, SISTEMAS SÓ PODEM SER COMPREENDIDOS DENTRO DE UMA DINÂMICA SOCIAL COLETIVA .
Parem de propagar o liberalismo em nome do feminismo porque liberalismo NÃO é feminismo.
Feminismo que defende prostituição como "escolha" individual é "feminismo" liberal, só que feminismo e liberalismo são práticas CONTRADITÓRIAS. Logo, "feminismo liberal" NÃO EXISTE, é uma FALÁCIA patriarcal pra manipular e dividir as mulheres".
Leitura básica e fundamental sobre o tema: PROSTITUIÇÃO E SUPREMACIA MASCULINA de A. Dworkin.
Esse texto foi escrito por ocasião de uma série de levantes e contestações de feministas abolicionistas contra esse movimento bizarro e criminoso.
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| Se prostituem? Ou são prostituídas por homens? Quem é o sujeito da prostituição? Quem é seu objeto? |
PROSTITUIÇÃO NÃO É ESCOLHA INDIVIDUAL, É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA
Nenhuma mulher "escolhe" ser prostituída, NENHUMA. Em nenhuma circunstância.
Simplesmente porque a prostituição não pode ser compreendida em termos de escolhas individuais, isso é uma falácia neoliberal. Prostituição é um SISTEMA de escravidão feminina.
Não existe mulher que "se prostitui", mulher não prostitui a si mesma, ela só está prostituída porque os homens são os agentes da prostituição, é deles a demanda por prostitutas, são eles os sujeitos da prostituição, logo, mulheres não "se prostituem" ["se" é partícula reflexiva, que indica que alguém faz algo pra si mesmo e não pra outrem], mulheres SÃO PROSTITUÍDAS POR HOMENS.
Não há 2 sujeitos da prostituição, o sujeito da prostituição é o HOMEM - em qualquer circunstância - a mulher é o OBJETO da prostituição.
Ser objetificada significa ser REIFICADA.
Reificação é fundamentalmente um processo de DESUMANIZAÇÃO.
Nenhuma mulher "escolhe" ser reificada, ela apenas não teve chances ainda de compreender que está sendo porque o patriarcado NATURALIZA o processo de reificação das mulheres e as proíbe de narrarem pela perspectiva das mulheres as nossas versões das histórias de subjugo e dominação masculina, assim como nos impede que nos reconheçamos nessas histórias e umas nas outras. O patriarcado nos impõe a sua própria versão do que a prostituição é para as mulheres: "liberdade sexual", "escolha", "empoderamento". Mas basta ouvirmos o que estão dizendo a imensa maioria das mulheres prostituídas por homens para saber que essa versão é FALSA, que essa é uma versão PATRIARCAL que não condiz com a realidade e nem com os relatos da GRANDE MAIORIA das mulheres prostituídas.
Vamos parar de defender prostituição como se isso fosse feminismo porque NÃO É.
PROSTITUIÇÃO É SISTEMA DE ESCRAVIDÃO FEMININA. SISTEMAS NÃO SÃO FENÔMENOS INDIVIDUAIS, SISTEMAS SÓ PODEM SER COMPREENDIDOS DENTRO DE UMA DINÂMICA SOCIAL COLETIVA .
Parem de propagar o liberalismo em nome do feminismo porque liberalismo NÃO é feminismo.
Feminismo que defende prostituição como "escolha" individual é "feminismo" liberal, só que feminismo e liberalismo são práticas CONTRADITÓRIAS. Logo, "feminismo liberal" NÃO EXISTE, é uma FALÁCIA patriarcal pra manipular e dividir as mulheres".
Leitura básica e fundamental sobre o tema: PROSTITUIÇÃO E SUPREMACIA MASCULINA de A. Dworkin.
terça-feira, 31 de maio de 2016
SOBRE FEMINISMO, FÊMEAS HUMANAS, ETIMOLOGIA E A SOCIOGÊNESE DE NOSSA OPRESSÃO
E CONTRA A COLONIZAÇÃO MASCULINA DE ESPAÇOS E NARRATIVAS FEMINISTAS.
Pessoas do sexo masculino, socializadas a partir do falo, do falocentrismo e da misoginia, sempre definiram o que é ser mulher, o que é a nossa condição. A partir das definições falocentradas da mulher é que surgiu o gênero, o gênero feminino, os estereótipos de gênero. Gênero nada mais é do que: a definição masculina do que é mulher a partir de necessidades e sentimentos centrados nesse sujeito falocentrado. Às mulheres nunca foi dada a possibilidade de definir, nós mesmas, a partir de nossas experiências, o que é a condição feminina. NUNCA. É fundamental pra manutenção do patriarcado nos negar isso e garantir que pessoas do sexo masculino nomeiem, definam e narrem o que é ser mulher, o que é a condição feminina. A diferença é que, antes, eles faziam isso e era patriarcado e hoje fazem isso e chamam de feminismo/transfeminismo.
Agora, não satisfeitos em invadir e nos silenciar dentro do único espaço em que conseguimos conquistar o direito de dizer, narrar e nomear a nós mesmas a partir de experiências que a vivemos materialmente - e não sob a forma de um sentimento subjetivo a partir de um fetiche patriarcal do que seria ser mulher - os homens estão disputando conosco o direito de definir o que é ou não o feminismo: se se ocupar somente de pautas, debates, demandas, opressões e violências que dizem respeito apenas àquelas que, historicamente vem sendo dominadas através de seu sexo, da materialidade de seus corpos, da exploração de suas capacidades reprodutivas, e não contemplar o sentimento de homens, não é feminismo, é cisativismo.
Homens, além de acreditarem que seus sentimentos devem ter prioridade acima da realidade histórica e material que violenta milenarmente o sexo feminino e forja o gênero feminino, querem nos proibir de dizer o que é ser mulher no patriarcado e nos proibir de dizer que colocar como prioridade a segurança, a vida e a integridade de pessoas nascidas sob a materialidade do sexo feminino não é feminismo, é cisativismo.
Há milênios homens vêm nos roubando o direito de dizer nós mesmas o que somos, o que é ser mulher. O único espaço que tínhamos pra isso era o feminismo, agora o poder discursivo e a força colonizadora poderosa da narrativa falocentrada e misógina no patriarcado tem tentado nos impedir também de afirmar que o feminismo é um movimento que luta exclusivamente por causas e pautas relativas às violências que sofremos pela imposição de ser mulher no patriarcado e não por homens, independente de como eles se sentem em suas subjetividades.
A palavra "feminismo" deriva, etimológica, histórica, social e materialmente, do substantivo "fêmea" - que corresponde, numa vasta classificação da diversidade natural, àquelas seres que, na natureza, tem uma característica específica: o sexo feminino. Feminismo, portanto, diz respeito a um movimento de um grupo específico de pessoas que sentindo materialmente em sua vivência cotidiana a hierarquização que os homens promovem das diferenças sexuais naturais pra definir, dominar e explorar o sexo feminino, se voltaram contra esse sistema, de exploração da fêmea humana pelo sexo masculino - daí o movimento FEMINISTA. A exploração das mulheres é sexual. É através da hierarquização das diferenças sexuais que os homens criam e naturalizam a definição de "gênero feminino" e legitimam a Divisão Sexual do Trabalho. A Divisão Sexual do Trabalho pela ideia de gênero feminino é a forma organizada e sistemática pela qual os homens têm mantido a exploração e opressão das mulheres, e ela se dá pelo sexo e não pela identidade de gênero. A exploração das mulheres tem origem no sexo e não no gênero. O gênero é uma estratégia masculina violenta de hierarquização das relações entre machos e fêmeas humanas para a dominação e exploração dessas, e não o fundamento da nossa dominação ou, muito menos, um fenômeno natural com que se possa se identificar ou não.
Feminismo é sobre fêmeas humanas, sobre a exploração de nossos corpos, de nosso sexo, de nossa capacidade de gerar e reproduzir e de tudo o mais que, historicamente, têm se desdobrado a partir dessa raiz, desse fundamento opressor. Isso é o feminismo. O nome do movimento que se ocupa com sentimentos, demandas e subjetividades de pessoas do sexo masculino acima da materialidade dos corpos das mulheres se chama PATRIARCADO.
Portanto, feminismo que se ocupa de pautas, necessidades e sentimentos de pessoas nascidas no sexo masculino NÃO EXISTE. Transfeminismo NÃO EXISTE. Isso é COLONIZAÇÃO do movimento feminista por sujeitos falocentrados, aqueles que sempre foram os sujeitos do discurso, os sujeitos que se instituíram e se autolegitimam uns aos outros na autoridade de definir o mundo e a nossa condição.
Feminismo que se ocupa de sentimentos, vontades e demandas de pessoas pertencentes à casta dominante, à casta que historicamente tem definido, instituído e limitado o sexo feminino a partir das definições de "gênero feminino" não é feminismo, é backlash, é reação patriarcal, independente de como as pessoas do sexo masculino se sentem ou com o que se identificam.
Na mesma linha de pensamento, podemos afirmar que transmisoginia também não existe, transmisoginia também é backlash, é reação patriarcal. A expressão "misoginia" não significa exatamente - ou simplesmente - "ódio às mulheres", mas, antes, e fundamentalmente, a palavra misoginia nomeia o ódio ao SEXO FEMININO e a tudo que diz respeito a ele. E, apenas a partir desse sentido fundamental, é possível compreender e nomear o que é ser mulher no patriarcado, e nenhum outro grupo de pessoas está mais apto ou autorizado a dizer o que é ser mulher do que aquelas que são o sujeito da misoginia: o sexo feminino. "Misoginia" deriva da palavra grega gynè, significa "bainha"; tanto a palavra gynè quanto a palavra vagina - que significa "bainha de guardar espada" -, são definições falocentradas do sexo, da anatomia, do corpo, da condição feminina - e isso é uma característica comum a todas as sociedades patriarcais: definir mulher como "gênero feminino" a partir da redução de nossas especificidades ao desejo, ao corpo, ao sexo masculino. Portanto, podemos dizer que, com toda diversidade regional, cultural e social que perpassa a experiência feminina nas diversas culturas patriarcais, a definição da condição feminina a partir da redução de nossas anatomias, fisiologias e existências à centralidade do falo e do sujeito falocentrado é a característica comum de qualquer pessoa do sexo feminino em qualquer sociedade patriarcal, é o que nos faz mulher. Misoginia é a palavra pra designar, então, o ódio àquilo que é odiado pelo patriarcado e que nos faz mulher: O SEXO FEMININO e tudo que diz respeito a ele. Misoginia, ao mesmo tempo que nomeia o ódio específico ao sexo feminino, traz na sua própria designação todo ódio e desprezo do sexo masculino pelo feminino, definido pelo primeiro a partir de si mesmo como algo que existe em função do pênis, a bainha de guardar a espada - raiz também de toda lesbofobia e potência de aniquilação de lésbicas e suas narrativas. Assim, não pode ser nenhum absurdo dizer que misoginia contra pessoas do sexo masculino também é algo que NÃO EXISTE, que transmisoginia NÃO EXISTE, que insistir nisso também é backlash, reação patriarcal.
Portanto, não é difícil chegar a conclusão de que cisativismo também NÃO EXISTE. O nome do movimento que tem como prioridade exclusiva pessoas nascidas no sexo feminino e suas pautas, demandas e opressões fundamentadas na exploração sexual promovida pelo patriarcado contra pessoas nascidas no sexo feminino e definidas por ele como mulheres é FEMINISMO.
Se você faz parte de um movimento que ignora, silencia e promove o apagamento de tudo isso, da raiz de nossas opressões, do fundamento do qual se desdobram todas as outras práticas de opressão contra nós, saiba: esse movimento não é feminista, na verdade, ele é antifeminista, antimulher.
Eu sou FEMINISTA. Feminista Radical. Minha opressão não tá na identidade de gênero, minha opressão é SEXUAL.
Feministas radiciais existem e resistem. O transativismo não vai nos silenciar. Nós não temos medo da colonização masculina sobre nossos corpos, nosso sexo, nossas práticas, nossos discursos e narrativas, nós a estamos enfrentando há milênios.
Pessoas do sexo masculino, socializadas a partir do falo, do falocentrismo e da misoginia, sempre definiram o que é ser mulher, o que é a nossa condição. A partir das definições falocentradas da mulher é que surgiu o gênero, o gênero feminino, os estereótipos de gênero. Gênero nada mais é do que: a definição masculina do que é mulher a partir de necessidades e sentimentos centrados nesse sujeito falocentrado. Às mulheres nunca foi dada a possibilidade de definir, nós mesmas, a partir de nossas experiências, o que é a condição feminina. NUNCA. É fundamental pra manutenção do patriarcado nos negar isso e garantir que pessoas do sexo masculino nomeiem, definam e narrem o que é ser mulher, o que é a condição feminina. A diferença é que, antes, eles faziam isso e era patriarcado e hoje fazem isso e chamam de feminismo/transfeminismo.
Agora, não satisfeitos em invadir e nos silenciar dentro do único espaço em que conseguimos conquistar o direito de dizer, narrar e nomear a nós mesmas a partir de experiências que a vivemos materialmente - e não sob a forma de um sentimento subjetivo a partir de um fetiche patriarcal do que seria ser mulher - os homens estão disputando conosco o direito de definir o que é ou não o feminismo: se se ocupar somente de pautas, debates, demandas, opressões e violências que dizem respeito apenas àquelas que, historicamente vem sendo dominadas através de seu sexo, da materialidade de seus corpos, da exploração de suas capacidades reprodutivas, e não contemplar o sentimento de homens, não é feminismo, é cisativismo.
Homens, além de acreditarem que seus sentimentos devem ter prioridade acima da realidade histórica e material que violenta milenarmente o sexo feminino e forja o gênero feminino, querem nos proibir de dizer o que é ser mulher no patriarcado e nos proibir de dizer que colocar como prioridade a segurança, a vida e a integridade de pessoas nascidas sob a materialidade do sexo feminino não é feminismo, é cisativismo.
Há milênios homens vêm nos roubando o direito de dizer nós mesmas o que somos, o que é ser mulher. O único espaço que tínhamos pra isso era o feminismo, agora o poder discursivo e a força colonizadora poderosa da narrativa falocentrada e misógina no patriarcado tem tentado nos impedir também de afirmar que o feminismo é um movimento que luta exclusivamente por causas e pautas relativas às violências que sofremos pela imposição de ser mulher no patriarcado e não por homens, independente de como eles se sentem em suas subjetividades.
A palavra "feminismo" deriva, etimológica, histórica, social e materialmente, do substantivo "fêmea" - que corresponde, numa vasta classificação da diversidade natural, àquelas seres que, na natureza, tem uma característica específica: o sexo feminino. Feminismo, portanto, diz respeito a um movimento de um grupo específico de pessoas que sentindo materialmente em sua vivência cotidiana a hierarquização que os homens promovem das diferenças sexuais naturais pra definir, dominar e explorar o sexo feminino, se voltaram contra esse sistema, de exploração da fêmea humana pelo sexo masculino - daí o movimento FEMINISTA. A exploração das mulheres é sexual. É através da hierarquização das diferenças sexuais que os homens criam e naturalizam a definição de "gênero feminino" e legitimam a Divisão Sexual do Trabalho. A Divisão Sexual do Trabalho pela ideia de gênero feminino é a forma organizada e sistemática pela qual os homens têm mantido a exploração e opressão das mulheres, e ela se dá pelo sexo e não pela identidade de gênero. A exploração das mulheres tem origem no sexo e não no gênero. O gênero é uma estratégia masculina violenta de hierarquização das relações entre machos e fêmeas humanas para a dominação e exploração dessas, e não o fundamento da nossa dominação ou, muito menos, um fenômeno natural com que se possa se identificar ou não.
Feminismo é sobre fêmeas humanas, sobre a exploração de nossos corpos, de nosso sexo, de nossa capacidade de gerar e reproduzir e de tudo o mais que, historicamente, têm se desdobrado a partir dessa raiz, desse fundamento opressor. Isso é o feminismo. O nome do movimento que se ocupa com sentimentos, demandas e subjetividades de pessoas do sexo masculino acima da materialidade dos corpos das mulheres se chama PATRIARCADO.
Portanto, feminismo que se ocupa de pautas, necessidades e sentimentos de pessoas nascidas no sexo masculino NÃO EXISTE. Transfeminismo NÃO EXISTE. Isso é COLONIZAÇÃO do movimento feminista por sujeitos falocentrados, aqueles que sempre foram os sujeitos do discurso, os sujeitos que se instituíram e se autolegitimam uns aos outros na autoridade de definir o mundo e a nossa condição.
Feminismo que se ocupa de sentimentos, vontades e demandas de pessoas pertencentes à casta dominante, à casta que historicamente tem definido, instituído e limitado o sexo feminino a partir das definições de "gênero feminino" não é feminismo, é backlash, é reação patriarcal, independente de como as pessoas do sexo masculino se sentem ou com o que se identificam.
Na mesma linha de pensamento, podemos afirmar que transmisoginia também não existe, transmisoginia também é backlash, é reação patriarcal. A expressão "misoginia" não significa exatamente - ou simplesmente - "ódio às mulheres", mas, antes, e fundamentalmente, a palavra misoginia nomeia o ódio ao SEXO FEMININO e a tudo que diz respeito a ele. E, apenas a partir desse sentido fundamental, é possível compreender e nomear o que é ser mulher no patriarcado, e nenhum outro grupo de pessoas está mais apto ou autorizado a dizer o que é ser mulher do que aquelas que são o sujeito da misoginia: o sexo feminino. "Misoginia" deriva da palavra grega gynè, significa "bainha"; tanto a palavra gynè quanto a palavra vagina - que significa "bainha de guardar espada" -, são definições falocentradas do sexo, da anatomia, do corpo, da condição feminina - e isso é uma característica comum a todas as sociedades patriarcais: definir mulher como "gênero feminino" a partir da redução de nossas especificidades ao desejo, ao corpo, ao sexo masculino. Portanto, podemos dizer que, com toda diversidade regional, cultural e social que perpassa a experiência feminina nas diversas culturas patriarcais, a definição da condição feminina a partir da redução de nossas anatomias, fisiologias e existências à centralidade do falo e do sujeito falocentrado é a característica comum de qualquer pessoa do sexo feminino em qualquer sociedade patriarcal, é o que nos faz mulher. Misoginia é a palavra pra designar, então, o ódio àquilo que é odiado pelo patriarcado e que nos faz mulher: O SEXO FEMININO e tudo que diz respeito a ele. Misoginia, ao mesmo tempo que nomeia o ódio específico ao sexo feminino, traz na sua própria designação todo ódio e desprezo do sexo masculino pelo feminino, definido pelo primeiro a partir de si mesmo como algo que existe em função do pênis, a bainha de guardar a espada - raiz também de toda lesbofobia e potência de aniquilação de lésbicas e suas narrativas. Assim, não pode ser nenhum absurdo dizer que misoginia contra pessoas do sexo masculino também é algo que NÃO EXISTE, que transmisoginia NÃO EXISTE, que insistir nisso também é backlash, reação patriarcal.
Portanto, não é difícil chegar a conclusão de que cisativismo também NÃO EXISTE. O nome do movimento que tem como prioridade exclusiva pessoas nascidas no sexo feminino e suas pautas, demandas e opressões fundamentadas na exploração sexual promovida pelo patriarcado contra pessoas nascidas no sexo feminino e definidas por ele como mulheres é FEMINISMO.
Se você faz parte de um movimento que ignora, silencia e promove o apagamento de tudo isso, da raiz de nossas opressões, do fundamento do qual se desdobram todas as outras práticas de opressão contra nós, saiba: esse movimento não é feminista, na verdade, ele é antifeminista, antimulher.
Eu sou FEMINISTA. Feminista Radical. Minha opressão não tá na identidade de gênero, minha opressão é SEXUAL.
Feministas radiciais existem e resistem. O transativismo não vai nos silenciar. Nós não temos medo da colonização masculina sobre nossos corpos, nosso sexo, nossas práticas, nossos discursos e narrativas, nós a estamos enfrentando há milênios.
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terça-feira, 8 de março de 2016
O PATRIARCADO EXISTE, ACREDITE.
O patriarcado não é uma entidade, uma abstração, um imaginário: o patriarcado é real, material, ele é um sistema, com instituições, leis, regras, códigos, comandado por HOMENS, que decidem, instituem e legislam por sua manutenção.
Soube que hoje de manhã, no programa da Fátima Bernardes, um "especialista" explicou que meninos gostam de carrinhos porque produzem testosterona e que meninas gostam de boneca graças aos hormônios femininos.
Historicamente, mulheres têm sido educadas desde a primeira infância pra se dedicarem exclusivamente, ou prioritariamente, ao espaço doméstico, ao cuidado servil com a casa, com os filhos e marido. Enquanto homens são educados, também desde a primeira infância, pra sonharem ser o que desejam. Por isso meninas recebem brinquedos como bonecas, panelinhas, vassourinhas, etc., enquanto meninos recebem carrinhos, aviões, jogos de montagem ou de estratégia, etc. Essa é uma das maneiras mais eficazes de ensinar crianças, já desde de pequenas, a naturalizar a ideia de que mulheres são aptas aos serviços domésticos, ao cuidado e a dedicação, enquanto homens são líderes, exploradores, aventureiros por sua natureza. É esse ensinamento, que começa na infância e se perpetua por toda a nossa vida em tudo aquilo que é definido como "coisa de mulher" ou "feminino" e como "coisa de homem" ou "masculino", que vai definindo nas nossas mentes que realmente existem "coisas de meninos/homens" e "coisas de meninas/mulheres". É esse ensinamento, que começa desde a infância e se perpetua durante toda nossa vida através do esforço de naturalização de convenções inventadas sobre o que é "feminino" e "masculino", que faz com que mulheres desistam de seus sonhos por acreditar que precisam se casar e ter filhos para serem "mulheres completas", ou que acreditem fortemente que têm uma vocação natural pra maternidade, pro cuidado, pro casamento, enquanto homens ousam sonhar e lutar para ser e fazer o que quiserem. É esse ensinamento, que começa desde a infância e se perpetua durante toda nossa vida através do esforço de naturalização de convenções inventadas sobre o que é "feminino" e "masculino", que garante a perpetuação de um modelo de relações que faz com que mulheres passem a vida trabalhando gratuitamente servindo aos homens no espaço doméstico para garantir que eles tenham todas as condições materiais (conforto, alimentação, vestimentas, higiene, habitação e satisfação sexual) para desenvolverem suas potências e habilidades físicas e intelectuais e gerarem dinheiro e poder para si - os dois itens mais fundamentais pra manutenção do poder e da dominação masculina sobre nós, mulheres - enquanto mulheres se dedicam a vida toda a servi-los.
Por isso homens exploram as mulheres, suas mães, irmãs, esposas, e todo mundo acha natural.
Por isso o mercado de trabalho, as empresas e patrões precisam pagar menos às mulheres, subestimá-las, assediá-las, pra que elas se sintam cada vez mais desestimuladas de trabalhar fora.
Por isso as empresas dificultam ou impedem mulheres mães de trabalhar, pra que elas entendam, de uma vez por todas, qual é o seu lugar.
Por isso homens precisam nos coagir para que tenhamos medo de trabalhar fora, andar nas ruas, sonhar em ser livres e nos impõem o medo através de sua violência machista, dos assédios, das agressões, estupros e mortes.
Por isso é fundamental que mulheres continuem se dedicando ao cuidado, aos homens, aos filhos, ao espaço doméstico.
Por isso é fundamental nos fazer crer que meninas gostarem de bonecas e meninos gostarem de carrinho é natural.
Agora me respondam: vocês acreditam que é por acaso, que é coincidência, que é uma fatalidade que, no dia 8 de março de 2016, quando o feminismo tem tomado cada vez mais espaços na sociedade, a direção de um programa de uma grande emissora escolha um cara pra dizer em rede nacional que é natural meninas gostarem de bonecas e meninos gostarem de carrinhos?
Não, não é.
Não é coincidência, não é por acaso, não é uma fatalidade: o nome disso se chama PATRIARCADO.
Soube que hoje de manhã, no programa da Fátima Bernardes, um "especialista" explicou que meninos gostam de carrinhos porque produzem testosterona e que meninas gostam de boneca graças aos hormônios femininos.
Historicamente, mulheres têm sido educadas desde a primeira infância pra se dedicarem exclusivamente, ou prioritariamente, ao espaço doméstico, ao cuidado servil com a casa, com os filhos e marido. Enquanto homens são educados, também desde a primeira infância, pra sonharem ser o que desejam. Por isso meninas recebem brinquedos como bonecas, panelinhas, vassourinhas, etc., enquanto meninos recebem carrinhos, aviões, jogos de montagem ou de estratégia, etc. Essa é uma das maneiras mais eficazes de ensinar crianças, já desde de pequenas, a naturalizar a ideia de que mulheres são aptas aos serviços domésticos, ao cuidado e a dedicação, enquanto homens são líderes, exploradores, aventureiros por sua natureza. É esse ensinamento, que começa na infância e se perpetua por toda a nossa vida em tudo aquilo que é definido como "coisa de mulher" ou "feminino" e como "coisa de homem" ou "masculino", que vai definindo nas nossas mentes que realmente existem "coisas de meninos/homens" e "coisas de meninas/mulheres". É esse ensinamento, que começa desde a infância e se perpetua durante toda nossa vida através do esforço de naturalização de convenções inventadas sobre o que é "feminino" e "masculino", que faz com que mulheres desistam de seus sonhos por acreditar que precisam se casar e ter filhos para serem "mulheres completas", ou que acreditem fortemente que têm uma vocação natural pra maternidade, pro cuidado, pro casamento, enquanto homens ousam sonhar e lutar para ser e fazer o que quiserem. É esse ensinamento, que começa desde a infância e se perpetua durante toda nossa vida através do esforço de naturalização de convenções inventadas sobre o que é "feminino" e "masculino", que garante a perpetuação de um modelo de relações que faz com que mulheres passem a vida trabalhando gratuitamente servindo aos homens no espaço doméstico para garantir que eles tenham todas as condições materiais (conforto, alimentação, vestimentas, higiene, habitação e satisfação sexual) para desenvolverem suas potências e habilidades físicas e intelectuais e gerarem dinheiro e poder para si - os dois itens mais fundamentais pra manutenção do poder e da dominação masculina sobre nós, mulheres - enquanto mulheres se dedicam a vida toda a servi-los.
Por isso homens exploram as mulheres, suas mães, irmãs, esposas, e todo mundo acha natural.
Por isso o mercado de trabalho, as empresas e patrões precisam pagar menos às mulheres, subestimá-las, assediá-las, pra que elas se sintam cada vez mais desestimuladas de trabalhar fora.
Por isso as empresas dificultam ou impedem mulheres mães de trabalhar, pra que elas entendam, de uma vez por todas, qual é o seu lugar.
Por isso homens precisam nos coagir para que tenhamos medo de trabalhar fora, andar nas ruas, sonhar em ser livres e nos impõem o medo através de sua violência machista, dos assédios, das agressões, estupros e mortes.
Por isso é fundamental que mulheres continuem se dedicando ao cuidado, aos homens, aos filhos, ao espaço doméstico.
Por isso é fundamental nos fazer crer que meninas gostarem de bonecas e meninos gostarem de carrinho é natural.
Agora me respondam: vocês acreditam que é por acaso, que é coincidência, que é uma fatalidade que, no dia 8 de março de 2016, quando o feminismo tem tomado cada vez mais espaços na sociedade, a direção de um programa de uma grande emissora escolha um cara pra dizer em rede nacional que é natural meninas gostarem de bonecas e meninos gostarem de carrinhos?
Não, não é.
Não é coincidência, não é por acaso, não é uma fatalidade: o nome disso se chama PATRIARCADO.
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